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Posts Tagged ‘perdão’

Lá vai ele atravessando a praça

de impecável preto

colarinho branco

sapatos usados a ranger caminhos

 

Entrando no templo abençoa a todos

e a mim, Miriam, em particular

quando conto-lhe os pecados que não tenho

 

Ouço sua voz profunda e pausada

dando-me por penitência

20 pai-nossos e 30 ave-marias

mas como dizer-lhe

que não sei mais rezar…

 

Eu, Miriam, que dizem ter semblante de anjo

voz de veludo, gestos singelos

ajoelho-me neste canto da igreja

em falsa humildade

aos pés deste homem filho de Deus

 

Só para admirar seu perfil

desejar sua boca

fitar seus olhos molhados

seu aceno em cruz

suas palavras de paz

que nunca consigo ouvir…

 

Deixo-me benzer por essas mãos

que tanto queria tocando meu corpo

e quando o martírio termina

e nossos olhos se cruzam

sinto o fogo do inferno incendiar-me

como a implorar-lhe que este instante seja eterno

 

Mas eu, Miriam, que dizem ter semblante de anjo

voz de veludo, gestos singelos

levanto-me e saio quase que correndo

e de imediato entro em outro templo

para confessar quatro pecados

que antes de conhecê-lo não tinha

o de mentir

o de fingir

o de desejar

e o de sonhar

 

Amém

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Súplica

Por favor, Senhor, abra Tua porta para mim.

Apesar de não ter roubado quem quer que seja, não sei se mereço, mas peço.

Apesar de não ter matado nem física, mental ou moralmente alguém, mesmo assim não sei se mereço, mas peço.

Apesar de ter judiado uma vez de algumas avezinhas quando pequena e disso nunca vou me esquecer e nem me perdoar e de ter comido formigas porque minhas amiguinhas do jardim da infância diziam ser bom para a vista, alegando que nunca tinham visto uma formiga de óculos, sei que não mereço, mas peço.

Apesar de continuar cometendo pecados diversos e adversos, nunca caluniei ou difamei ninguém; não sei se por assim ser, isso possa contar como ponto a meu favor; por isso, peço.

Apesar de ter deixado dois companheiros à margem de minha vida antes que nos apunhalássemos , infeliz que fui morrendo um pouco a cada dia, e assim infelicidade causando a eles, não sei se mereço, mas peço.

Apesar de meus pais terem partido na flor da minha idade; de meu irmão, totalmente contra sua vontade, ter me deixado a falar sozinha; de meu avô continuar semeando saudade nos meus dias e nas noites também; apesar de todas essas perdas, Senhor, nunca blasfemei achando que não merecia; por isso, peço.

Apesar de tentar ser uma boa irmã, uma amiga verdadeira, uma aprendiz atenta, uma mulher silenciosa porém vívida, não sei se o sou, mas mesmo assim, peço.

Apesar de escrever fielmente o que sinto, de ser perdidamente apaixonada por livros e músicas, não sei se mereço, mas peço.

Apesar de amar o irremediável, talvez não mereça, mas peço.

Por favor, Senhor, abra a porta e deixe que eu saia.

Não consigo mais ficar trancafiada aqui neste corpo, tamanha é minha aflição.

Ou talvez eu não mereça mesmo, talvez esteja tudo de acordo com o que deve ser.

Mesmo assim, peço.

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Perdão


Perdoe-me amor

por invadir tua vida

sem me anunciar

sem sequer perguntar

se por aquela porta que aberta estava

eu poderia entrar

 

Se me recebeste em tua vida

por pura falta de jeito

em me dizer

que aquela sala iluminada

aquele vaso de flores

não eram para me esperar

 

Perdoe-me amor

se me acostumei amanhecer

olhando teus olhos

cravados em minha alma

e as hortênsias que crescem em silêncio

tão lindas no meu jardim

 

Se quiseres

posso partir de ti

onde um dia cheguei

para que vivas

em paz

 

 

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