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Posts Tagged ‘perfume’

União

anjo-1

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O tinir da sineta por nove vezes

.

Há um silêncio no coração de quem busca

sussurros ouvidos somente por aqueles

que se entregam ao profundo momento

como a um sublime segredo

.

É quando atravesso o espelho

.

Levam-me lentamente

num sopro de sons

no perfume das pétalas

e do incenso

.

Levam-me a banhar os pés

em respeito ao solo

onde irei tocar

.

Trocam-me a veste

de puro e alvo linho

cingida pelo laço da união

.

Atravesso mais um espelho

.

Quem me guia toca-me o braço

se assim não fosse eu volitaria

diante da Rosa e da Cruz

Luz intensa, intensa emoção

.

Atravesso mais um espelho

.

Sinto-me fundida àquela chama

sinto-me una

invisível energia

em plena Paz

.

De meus olhos

brotam lágrimas de amor

mas ali já não estou

.

No mais profundo de meu ser

minha Rosa

minha Seiva, meu Sol do leste

.

Penso em reagir, retornar

mas… para quê?

se estou nos braços de Deus!              

.

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sabia

 

 

O pássaro da primavera voltou.

Sempre chega antes, anunciando a estação que está por vir.

Como um relógio, começa seu canto às quatro horas da manhã; como um relógio, desperta-me com sua canção.

Todos os dias, mesmo nos frios ou chuvosos.

Seu trinado preenche todo o meu quarto, como se estivesse tão próximo, em alguma planta do meu terraço.

Fico quietinha, ouvindo-o e imaginando sua alegria pulando de árvore em árvore, de galho em galho, como que presenteando a todos com essa madrugada musical.

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Na primavera passada alguém reclamou para mim de seu canto intermitente (mas não tão repetitivo, repleto de solfejos diferentes) e eu fico a pensar como é possível eu sentir prazer com um mesmo fato onde outro sente desalento, irritação…

Quem não gosta da música da natureza está mal consigo mesmo, penso eu.

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Abrindo aqui um parênteses, lembrei-me de uma situação ocorrida ainda esta semana.

Liguei para meu porteiro informando que precisaria viajar e se eu poderia, mais uma vez, deixar meu periquitinho na portaria para eles cuidarem (e, claro, quando volto, sempre os recompenso por isso, nada mais justo!)

Meu Plingo canta o dia todo, só pára para comer, beber e dormir.

Ele é tão feliz, que dá gosto de observar!

Pois não é que “alguém” reclamou que ele não pára de cantar e, por isso, torna-se irritante?

Fechando parênteses.

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Vou até a janela da sala e, além de ver um céu todo estrelado e a lua, majestosa, crescendo a cada noite, me apercebo que o pássaro deixa a árvore do meu prédio e vai se afastando para outras árvores.

Volto para a cama e ouço seu cantar se distanciando, distanciando, distanciando… e assim acabo dormindo outra vez.

Com o coração repleto de música, de doçura, de amor, mesmo que de meus olhos esteja rolando uma lágrima de saudade daquela que fui e não serei mais.

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A Primavera, como o sabiá, enfeitará e perfumará meu coração novamente.

E isso me basta.

 

 

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rosa rosa vermelha

 

 

Toda noite converso com minha Rosa.

Como Agostinho o fazia e era santo.

Eu, então, devo fazê-lo sempre, pois de santa só tenho o nome, dado por meu pai que também era devoto de Agostinho.

Às vezes sinto minha Rosa resplandecente! De outras, quieta, me olhando, me ouvindo, com aquele sorriso de compaixão que somente uma Rosa sabe sentir.

Mas, mesmo assim, silenciosa, não deixa nunca de espargir seu perfume, como que me incensando das impurezas que criei, para que eu possa dormir em Paz.

Conto para minha Rosa como foi meu dia (como se ela não soubesse!) e cada um dos fatos consequentes de meus atos.

E coloco-os na balança.

O que foi bom mas que eu poderia ter feito melhor.

O que fiz e que não deveria ter feito.

O que não fiz mas que poderia ter feito.

O que foi ruim e que não devo deixar se concretizar novamente.

No embalsamamento, os egípcios retiravam os órgãos vitais do desencarnado e os guardavam em quatro urnas que eram depositadas, posteriormente, dentro do sarcófago.

Assim é que minha Rosa me alerta para esse simbolismo que, como os egípcios, levarei comigo somente as quatro reflexões que Agostinho fazia a cada final de seu dia.

Ou seja, a capacidade de discernir o dever e o poder; não o poder que exacerba a humanidade, mas o de ter clareza para se transmutar o tempo que for necessário, a cada oportunidade.

Por isso, converso sempre com minha Rosa.

Ela me fortalece, Ela me anima, Ela me ensina e mostra a importância das pedras no caminho, tanto e quanto um raio de sol.

Boa noite e obrigada, minha Rosa, pela pouca paz que já encontrei.

Ah! como é linda minha Rosa!

 

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cerejeira1

 

 

Cerejeira, cerejeira…

com teus galhos quase secos

quase negros

voltados aos céus como em prece!

 

Logo tua pele eclodirá

em milhares de florzinhas rosas

quase brancas

como dádivas de seu pedido à Natureza

de perfume, beleza e ternura

 

Maravilharás meus olhos

que, como encantados,

acompanharão essa transmutação

como se mágica fosse

 

Todo ano, todo encanto

como surpresa de primeira vez!

 

Me fazes sempre lembrar

da vontade de ter junto à mim

aquele que habita meu coração

 

Por certo comigo desvendaria

tua leveza, tua beleza,

Senhora Alteza Cerejeira,

hoje em prece e luz

 

 

 Em homenagem à cerejeira cultivada por minha amiga irmã Elizabeth Panebianco, em sua casa de campo

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Gosto de livros novos.

Claro é que se os tenho, foram escolhidos e adquiridos depois de muita observância e prazer.

Gosto de livros novos.

Executo um ritual toda vez que tenho um em minhas mãos.

E, interessante, percebi que esse ritual não acontece em livrarias, somente quando estamos eu e a obra; já tentei, chego até o meio do caminho, mas não existe intimidade suficiente no ambiente para que possamos nos apresentar.

Aprecio a arte gráfica da capa, cores, imagens, título, altos e baixos relevos.

Leio as orelhas do livro para saber do que se trata, a biografia do autor e em seguida, a contra capa.

Aí então chega o momento que mais gosto (antes de ler, é claro).

Abro o livro em qualquer página e cheiro-o profundamente.

Profundamente… como se assim pudesse colher em mim todo o seu conteúdo e, quando o estiver lendo, apenas estarei tomando conhecimento do que dentro de mim já está; é a tinta, o papel e também um pouco do perfume da alma de seu  autor o que me embriagam tanto.

Assim permaneço por alguns instantes, olhos fechados, deixando-me invadir pelas sensações para depois, com lucidez, saborear as palavras.

Sorrio com elas, choro com elas, me emociono com elas, durmo com elas.

Às vezes sonho, às vezes me assusto com elas.

Mas é certo que, novo ou velho, quando estou lendo um livro, abraço-o como se a um grande amor.

Talvez, um dia, alguém possa ler as anotações que costumo fazer nas margens desses livros e assim saiba que aquelas palavras foram importantes para alguém que redescobriu emoções adormecidas através das emoções de outras pessoas humanamente sensíveis e inspiradoras.

Livros, meus mestres silenciosos, mas que me falam tanto à alma.

 

 

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Aqui estou.

Na casa dos meus sonhos.

Vejo esta escadaria e sinto-me como quando pequena, descendo pelo corrimão, a voar dias, ouvindo minha tia cheia de cuidados.

A passar horas de alegria até o relógio se cansar de marcar tantos risos.

  

Aqui estou.

Outrora onde houvera o quadro de meu avô, agora me sorri um homem de semblante centrado a fitar-me diretamente nos olhos, como o fazem somente criaturas especiais.

Austero como convém à moldura, porém com uma ponta de tristeza no olho esquerdo.

  

Esta sala… o vitral ao fundo, sem luz natural.

Quantas tardes sentei-me neste mesmo lugar, aonde havia um grande e macio sofá, só para ficar olhando o sol se por nesses mil pedacinhos de vidros coloridos, alegrias diversas, flores raras, murmúrios de fontes, pássaros a desvendarem o espaço…

  

No teto desta sala onde muitas vezes deixei meus olhos se perderem, depositei em cada canto, em cada devaneio, minhas ilusões, meus anseios e alguns medos.

Mas foi no sótão que escondi meus segredos, a esperar meu príncipe na sacada, nas noites de luar.

  

E minha mãe a tricotar mais sapatinhos de bebê.

E meu pai a fumar seu cachimbo com cheiro de chocolate, lendo as últimas notícias estampadas no jornal.

E meu avô ao telefone, aquele antigo, de manivela, a trocar idéias com Ramos de Azevedo.

Meu irmão caçula a pintar um quadro de escravos libertos, enquanto minha irmã mais velha lia algo interessante sobre Haroldo de Campos, este de olhar emoldurado!

  

Aqui estou.

Na casa de meus sonhos que hoje chamam de Casa das Rosas, onde outrora foram plantadas em seus imensos canteiros e cultivadas pelas mãos de minha mãe, inúmeras rosas, de várias nuances, que marcavam sempre uma data especial.

  

Aqui estou.

Em outro tempo, em outra pele, com o sentimento impregnado de lembranças, como se de um perfume de nome saudades…

 

 

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Quem sou eu

para que a onda do mar venha até onde estou

e se quebre aos meus pés

em espuma e murmúrios

 

Quem sou eu

para que o mar permita que eu brinque e pule e cante

enquanto envolve meu corpo

em força e poder

 

Quem sou eu

para que o sol mostre as ilhas ao redor e os navios tão distantes

a gemerem seus lamentos

ao mais profundo do oceano

 

Quem sou eu

para que o Tempo traga lembranças em seu manto

vividas em outras praias

fazendo-me ver criança a catar conchinhas para castelos enfeitar

 

Quem sou eu

para que a lua me banhe com clarão e lágrimas

por sentir no ar o perfume dos que já se foram

sem algum vislumbre dos que virão

 

Quem sou eu

para que esta escuridão da noite me trague por inteira

sentada nesta pedra

onde brilha a imagem de uma oferenda aos céus

 

Quem sou eu

para que o Universo me presenteie com esta brisa carinhosa

que faz esvoaçar meus cabelos

minha alma

 

Quem sou eu

para que Itararé de São Vicente me acolha em seus braços

com tanta doçura, magia e leveza

 

Quem sou eu

pergunto ao silêncio embriagador do por do sol

um pequenino grão de areia responde-me ele

beijando-me a boca e o riso

como se faz a um eterno amor

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Pega-me entre as mãos

como se eu fosse uma flor

já vivendo sua tarde

 

Sente meu perfume suave

como é suave a brisa

lá nos bambuzais

 

Coloca-me num vaso

e enquanto alimenta-me

com a água pura e fresca

 do rio que corre lá no pomar

diz-me uma palavra doce

para me confortar

 

Afinal não é todo dia

que uma flor tardia

tem consciência

da sua permanência

 

Estende por debaixo do vaso

aquela toalha rendada

pelas mãos de minha mãe

para que me faça companhia

 

E quando saíres da sala

pisa manso

devagar

para que eu não suspeite

que partes

e nunca possa mais te olhar

 

 

  

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Retornar

  

 

Qualquer dia meu barco ficará à deriva.

Os remos soltos a balançarem com o movimento da água, como se fossem minhas mãos num último aceno.

Um aceno à natureza que sempre e tanto me encantou.

Um aceno aos habitantes das águas que por tantas vezes acompanharam meus sulcos, meu rastro, minhas marcas.

Um aceno a algumas sementes que plantei nas margens por onde passei e também aos frutos que colhi.

Um aceno ao perfume e ao silêncio da mata.

Um aceno às flores, aos pássaros e aos anjos que conheci.

Um aceno ao sol, à chuva, à lua e ao orvalho na relva, à neblina da manhã…

 

Haverá um momento em que meu barco chegará a alguma margem.

E ali permanecerá em silêncio, quieto, paciente, adormecido.

Por dias, anos ou séculos.

 Até que alguém o encontre e o faça, novamente, navegar pelas águas, pelas correntezas, ora frias, ora mornas, ora turbulentas e também em calmarias, atracando num novo cais.

Por segundos, por horas, para sempre.

 

Sei que nesse dia fará sol e, sem saber ao certo por que, sentirei novamente o perfume da vida, espargido pelo vento, no ar.

 

 

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Lembranças…

Há lembranças guardadas em gavetas perfumadas que, de tão cheirosas, viram sonhos.

  

Como virou aquele vestido que vovô Cintra deu, o Nhonhô, como carinhosamente gostávamos de chamá-lo.

Cor de gelo com fitas e lacinhos brancos, meias cor de rosa transparentes e sapatinhos de verniz (e a sombra do vovô de chapéu na foto, tirando a foto).

 Para ir à festa, só se for com o vestido que vovô deu; para ir à missa, só se for com o vestido que vovô deu; para passear com as irmãs no jardim, só se for com o vestido que vovô deu!

Mas, minha filha, vão pensar que você só tem essa roupa. Não faz mal, quero colocar o vestido que vovô deu.

Até que crescí e não deu mais, mesmo, para usá-lo.

 

Como virou o passeio na estação, só para ver o trem chegar, o trem partir.

Quando ouvi o apito lá longe, antes mesmo de fazer a curva (porque é que sempre há uma curva antes da chegada?), agarrei nas pernas de meu pai, com medo do barulho, mas fascinada com a enorme e negra e assustadora locomotiva que vinha, como um animal enlouquecido, tão veloz em nossa direção.

O vento e o barulho ensurdecedores que provocou quando chegou, tirou-me a fala, o fôlego.

Ao contrário de seu passo preguiçoso, quando começou a se mover para partir, depois de deixar tantas pessoas com suas malas na plataforma da estação.

Meu pai perguntou se eu havia gostado do passeio e eu dizia que sim com a cabeça, muda de emoção, porque as pessoas sempre me pareciam felizes ao chegar.

  

Como virou a ida ao aeroporto recém aberto, no Mércuri preto e brilhante de meu padrinho Ray.

Não sei se porque eu era ainda muito pequena, mas aquele avião parecia-me enorme, de um azul tão diferente… pousou na pista como se fosse uma libélula gigante vinda de um outro planeta!

Pelas mãos de meu pai e de meu padrinho, consegui chegar bem perto da escadinha, tão perto que pude ver algumas aeromoças, hoje comissárias de bordo.

E quando a libélula levantou voo, fiquei durante toda a noite com olhos sonhadores, imaginando como deveria ser delicioso olhar as nuvens de perto (aeromoça, será que poderia abrir um pouquinho só a janelinha, para eu tocar nas nuvens e nas estrelas?).

Fiquei imaginando pássaros exóticos fazendo ninhos nas nuvens, borboletas voando entre os raios do sol!

 

Lembranças…perfumadas e inesquecíveis.

Para sempre.

 

 

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