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ferreira_gullar_-_divulgacao

 

 

Malas prontas, mais alguns dias e viajo, mas não posso fazê-lo sem deixar de falar de Ferreira Gullar, que faz parte do pequeno grupo de poetas que sempre me fará companhia nos momentos insones, no silêncio mágico da noite.

Não vou falar dos rótulos que lhe atribuíram no traçado de seu caminho, alguns deles levianos, necessidade inerente do ser humano em tarjar as pessoas como se fossem bebidas, latas de comida, vestimentas de grife, carros de última linha.

Nem tão pouco quero falar de suas ideologias políticas, o que deixo essa parte para biógrafos, historiadores e jornalistas, embora toda vez que penso em seu exílio, sinto aquele vazio espelhado em seu olhar triste, ausente, doído, de solidão imposta, amarga, embora de sua boca sempre brotassem palavras de esperança.

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pulsando há 45 anos (*)

esse coração oculto

pulsando no meio da noite, da neve, da chuva

debaixo da capa, do paletó, da camisa

debaixo da pele, da carne,

combatente clandestino aliado da classe operária

meu coração de menino.

(*) à época da criação do poema

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O que quero é falar um pouco do Ferreira Gullar que, como disse, em noites insones sempre me faz companhia (conjugarei sempre no presente) e, ouvindo sua voz pausada e rouca, me perco em suas palavras, me embriago em seus sentimentos, pois tens o dom, oh! Poeta, de tornar-me pássaro noturno que voa em direção às estrelas.

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Em uma noite dessas (ainda me parece um sonho!) consegui reunir Gullar, Saramago e Manoel de Barros.

Foi um momento memorável! Tomamos vinho português e saboreamos queijos e frutas, ao som de poemas, sorrisos, indagações, lembranças e de pequenas lágrimas que rolaram, furtivas, de nossos olhos atentos.

E eu, na minha pequenez, bebia cada poema, cada gesto, cada silêncio, por saber estar ali o néctar dos deuses!

E assim adormeci, ainda não sei bem se sentada com todos eles na laje de algum prédio muito alto, observando a vida acontecer incessante lá em baixo, ou simplesmente no sofá de minha sala.

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Lembrei-me agora de quando eu te encontrei há alguns meses atrás, na livraria Travessa, no Leblon.

Trazia eu junto ao peito teu livro “Toda Poesia” e um outro de Adélia Prado.

Nossos olhares se cruzaram, nossos olhares se sorriram e minha timidez colou meu corpo no chão, não me permitindo ir cumprimentá-lo; apenas levantei a mão em um aceno e disse simplesmente, Olá, Poeta! e com um aceno de cabeça respondeste com carinho..

Fiquei com vontade de te perguntar, Poeta, se chegaste a abrir meu livro, a ler algum poema, se consegui levar-te à alma um pouco da minha.

Apertei tão forte teu livro junto ao corpo que por uns instantes o ar me faltou e fiquei assim, como criança, com o coração transbordando de amor, a fitar tua imagem.

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Como relâmpago, passou-me pela mente da vez que contaste que um fã assustou-se em ver-te na feira de Copacabana comprando frutas, ao que respondeste, Poeta também come!

E mais uma vez sorri pelo teu humor e assim procurei-te entre as pessoas, mas já havias ido embora.

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Obrigada, Poeta, por enriquecer tanto nossa cultura, literatura, pintura, artes plásticas e cênicas, hoje tão desvalorizadas, ignoradas mesmo em um universo de consumismo desvairado, sem qualidade alguma.

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Sei que continuarei ouvindo tua voz rouca e pausada no silêncio da noite e, como diz meu Mestre Interior, Quem pensa para falar, fala pausadamente; primeiro para ser ouvido e depois, entendido e depois ainda, refletido.

E agora, quando não estiveres em minha sala a declamar poemas para minha alma, também poderei ver tua luz resplandecendo no manto da noite, estrela de primeira grandeza que sempre serás.

Mesmo antes de ter sido empossado como um Imortal, penso que já havias sido informado que assim seria, quando escreveste:

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meu corpo de 1,70m que é meu tamanho no mundo

meu corpo feito de água

e cinza

que me faz olhar Andrômeda, Sírius, Mercúrio

e me sentir misturado

a toda essa massa de hidrogênio e hélio

que se desintegra e reintegra

sem se saber para quê

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Ouso dizer, Poeta,  que a resposta em algum momento virá e, como um lampejo de luz, saberás para quê.

 

 

 

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pequeno príncipe

 

Um filme em três dimensões.

Me encantei entre as estrelas, entre as delicadezas com as quais sonhei toda a minha vida e, das quais, algumas consegui que não adormecessem em mim.

Verei, pelo menos mais uma vez, para apreciar o desenho em si, a técnica de movimentos e cores, a leveza das vestes e, também mais uma vez, a profundidade dos sentimentos.

Hoje, bem… hoje entreguei-me à magia.

E vi quantos sentimentos profundos e simples ainda habitam minha alma; sentimentos que para tantas pessoas já caíram em desuso ou descrédito, no abismo imenso que se abriu entre os valores que ainda servem a alguns, de pilares de sustentação.

– “O que é cativar? pergunta o principezinho. É uma coisa muito esquecida, disse a raposa – significa criar laços”.

Hoje não quero falar de gente grande; quero falar de crianças como eu que, embora com mais idade , ainda sabem falar de ternura, de sonho, de encantamento, de brilho nos olhos quando se recebe uma doce palavra ou um simples mas poderoso carinho, um beijo gostoso ou um abraço mais demorado!

Meu coração saiu feliz e leve do cinema, confirmando-me que vale a pena lutar pelo que tenho de mais verdadeiro em mim, embora muitas vezes minhas atitudes e palavras gerem rizinhos disfarçados e zombeteiros.

Mas hoje nada disso me importa.

No caminho de volta para casa, lembrei-me de meu pai.

Há 39 anos comprei esse livro de presente para ele.

Quando o desembrulhou e o folheou vendo os desenhos infantis, olhou-me surpreso e espantado.

Mas, do alto de sua discrição e ponderação, disse-me brandamente, Minha filha, você acha que este livro é leitura para seu pai?

Como eu já esperava uma reação parecida, apenas lhe respondi, Leia, papai, depois comentaremos se é apropriado ou não.

E voltei para São Paulo, com a certeza de que ele leria o livro com cuidado, embalado em sua rede que costumava armar debaixo daquele caramanchão, naquele canto do quintal maravilhoso de nossa casa. (Papai demorou dois meses e meio para ler (e entender) O Pequeno Príncipe. Sei disso porque hoje eu o tenho comigo, onde, na última página, ele colocou a data em que terminou sua leitura.)

Quando lá retornei e quando já havíamos conversado sobre trivialidades, perguntei-lhe sobre o livro (senti que ele queria ter tocado no assunto bem antes, mas talvez não soubesse como abordá-lo).

Seus olhos brilharam imediatamente e então entendi que o meu intento havia se realizado; atingi em cheio o coração de poeta de meu pai, daquele pai que poderia ter sido rígido, austero, como todos os homens de sua época assim  criados, mas que tinha coração de mel, como o meu.

“Só se vê com o coração – disse a raposa ao principezinho.”

Olho neste instante para o céu.

Como faço todas as noites de minha vida, não importando como o tempo se apresente.

Vejo as estrelas que são meus amores, mas vejo também meus amores que se tornaram estrelas.

E meu coração sussurra baixinho para o sorriso que elas provocam em meu rosto… “o essencial é invisível!”

E a história desta pequenina e doce criatura se encerra com a conclusão que ele tirou, depois de suas andanças e descobertas, “E nenhuma pessoa grande jamais compreenderá que isso tinha tanta importância.”

Um filme em três dimensões.

Como se eu precisasse disso para sonhar!

 

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Pablo Neruda

 

Vontade tenho de alçar vôos por onde passaste.

Por certo deixaste rastros de palavras refletidas por cabeças politizadas, mas também de palavras estelares, de amor e, não posso omitir, de profunda solidão.

Sempre que penso em solidão, meu coração se aperta e tanto, ao lembrar-me de criaturas tão raras como tu, Mestre Neruda, que por transbordarem emoções, impressões fortes e tão cruas sobre o rumo das vidas, retiraram-se de entre os homens e, no que acredito, também foste tu retirado dos dias que a ti seriam destinados por mãos imundas e covardes, logo após o golpe militar.

 

Sorriste por nada e choraste por tudo que o cercava, mas que de ti já não faziam mais parte quando deflagrada a guerra civil espanhola.

Cambaleaste mais uma vez na crença de uma humanidade justa quando do assassinato de Federico García Lorca (outro poeta de rara lírica) e por assim ser, pela tua coesão com os republicanos espanhóis, acabaste destituído do teu cargo consular.

Foi quando, mais uma vez, tuas lágrimas não cansaram de indagar o que estava sendo feito desse povo que também tinhas como teu.

 

Exilado em tua própria pátria em 1949, mesmo assim nos presenteaste com o livro Canto Geral, na ocasião publicado no México e clandestinamente no Chile, onde deixou transparecer tua profunda dor, tua denúncia à imposição dos conquistadores que sugavam um povo já amargurado  pelo poderio desmedido do chamado Novo Mundo.

 

Considerado seu diário de exílio, encontro no As Uvas e o Vento, as profundas marcas que sangraram tua alma.

Amores perdidos, amigos desaparecidos, sonhos partidos como vidros que, embora multicores, já não compunham mais a tua poesia, a tua magia de viver.

 

A ti, Mestre, esta homenagem.

Eternamente despertarás minha alma a cada verso, aflorando teus sentimentos em meu ser tão carente de lirismo, como este poema que aqui deixo, junto com meu amor também e para sempre eterno.

Como é mágico poder falar contigo, mesmo que tu sejas uma grande estrela e eu, um pequeno grão de areia no universo.

 

 

 

Explicação

 

Para este país, para estes cântaros de greda:

para este jornal sujo que voa com o vento na praia:

para estas terras quebradas que esperam um rio de inverno:

quero pedir algo e não sei a quem pedi-lo.

 

Para nossas cidades pestilentas e encarniçadas, onde há no entanto

escolas com sinos e cinemas cheios de sonhos,

e para os pescadores e pescadoras dos arquipélagos do Sul

(onde faz tanto frio e dura tanto o ano)

quero pedir algo agora, e não sei o que pedir.

Quero pedir que não se mova a terra.

somos tão poucos os que aqui nascemos.

somos tão poucos os que padecemos

(e menos ainda os ditosos aqui nas cordilheiras)

há tantas coisas para fazer entre a neve e o mar;

ainda as crianças descalças atravessam os invernos;

não há tetos contra a chuva, faltam roupa e comida;

e assim se explica que eu tenha que pedir algo

sem saber bem a quem nem como fazê-lo.

 

(Quando já a memória do que fui se apague

com a repetição da onda na areia

e não lembre ninguém o que fiz ou não fiz

quero que me perdoem de antemão,

não tive tempo nunca de fazer ou não fazer nada:

porque a vida inteira eu a passei pedindo,

para que os demais alguma vez pudessem

viver tranqüilos.)

 

 

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Quando o poeta pensa

pare palavras

que passam de sua pena

para o papel

 

Desenha poemas

desenha suas penas

desenha pontos reticentes

de ternura e saudade

 

Depois enxuga os olhos

e volta a sonhar

 

 

 para meu querido poeta Álvaro Alves de Faria

 

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ofertorio

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Mais um ciclo religioso se completa, culminando com a comemoração do aniversário de um dos maiores avatares conhecido (pelo menos de nome) pela humanidade.

Digo religioso porque há vários ciclos que se sucedem em nossas vidas, constantemente, mas parece que nos lembramos somente daqueles instituídos social e religiosamente.

 

Não quero me estender citando detalhes de ciclos lunares, solar e das modificações / estações que a Natureza nos oferece.

 

Há também o ciclo temporal e é neste que quero me deter embora, em princípio, todos os outros estejam inseridos nele.

Mas quero ir mais fundo do que simplesmente falar em semanas, dias, horas, minutos.

 

Sempre me pergunto porque é que comemoramos datas,estações,passagens de ano e mesmo natais, e não comemoramos cada segundo de nossas existências.

Sinto que são nesses segundos que vamos construindo a razão da vida, cada um com suas virtudes (todos temos pelo menos uma) e com defeitos que vão nos fazendo crescer, quando com eles aprendemos a lição do momento.

 

Por que somos tão superficiais e banais com nossas próprias vidas, esse presente que cada um de nós recebeu, constante e pulsante, construído de nossas vontades, tristezas, alegrias, descobertas, prazeres, satisfações, decepções, aceitações e, principalmente, de nossos sonhos?…

Penso que esse é o maior presente, porque é no exato instante em que o recebemos que nos é dada a oportunidade única de nos conhecermos,nos desconhecermos,nos surpreendermos,nos encontrarmos e desencontrarmos dos nossos próprios sentimentos, do outro, do que ainda é velado mas que em algum momento será desvendado.

E, no entanto, nos preocupamos com presentes envoltos em laços brilhantes, grandes, coloridos; nos preocupamos em enfeitar a casa com guirlandas, imagens, luzes e músicas festivas.

 

Por que enlouquecemos nessas épocas do ano (natal, ano novo, carnaval) e nos esquecemos de comemorar a vida enquanto nos é possível?

 

Por que comemoramos o ano novo se ele pode ser renovado, redescoberto a cada segundo de nossa existência?

 

Por que esperar a data do aniversário, se aniversariamos a cada segundo de alegria, mesmo que dure apenas esse segundo?

 

É muito bom presentear os outros, mas será esta a única forma de expressarmos nosso carinho? será que amar as pessoas já não basta mais?

 

O que fazemos com o que aprendemos a todo instante, se não aplicá-los implica na ausência de uma razão para ser?

É isso: a vida não tem razão de ser se deixarmos apenas o tempo escorrer entre os dedos e os dias do calendário e nos preocuparmos somente com o aparente querer, o aparente amar, o aparente doar, o aparente ter e, o pior, o aparente ser.

 

Neste ponto quero abrir um parênteses e falar do amor que sinto pelos verdadeiros poetas, simplesmente porque se expõem e se entregam, às vezes até com medo de se descobrirem para depois se encontrarem em si mesmos, instante a instante, mesmo que em seguida se percam na primeira esquina.

Sabem da magia (e como sabem!) do instante seguinte, onde novamente se encontrarão e permitir-se-ão sonhar com a vida que vão tecendo, verso a verso, vivendo assim plenamente cada momento.

Alguém já disse que o poeta não tem medo de sofrer; seu único medo é o de não viver.

 

Precisamos (e eu me incluo) aprender a comemorar a vida de forma a que sejamos dignos de tê-la recebido e, se pretendemos comemorar algumas datas, que possamos nos entregar ao seu verdadeiro significado, à sua essência, à sua razão de ser.

Agradeça o presente que recebeu, neste Natal e em todos os segundos de sua existência!

 

 

Nota: Parto de viagem e retornarei a este blog em janeiro.

Nesse meio tempo estarei vivendo o que me cabe, como costuma dizer um grande ser humano e poeta.

 

 

 

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pablo neruda

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Perscruto o tempo e parece-me ouvir tua voz que me faz voar entre poemas, buscando teus sentimentos, verso a verso, nos caminhos e descaminhos, na ausência, na saudade, na busca, na solidão.

E triste fico ao sentir a falta de poesia nesta atualidade, onde ela é trocada por nada, nada mesmo, por pompas exacerbadas, atos ilícitos, brutalidades que tornam os seres insensíveis, roubando o sonho de quem tem o direito e a precisão de sonhar.

 

Para ti, Mestre Neruda, nada disto é novidade se relembrarmos de tudo porque passaste, até que, de decepção e dor, te isolaste das coisas mundanas para poder mais um pouco sobreviver, para viver, quem sabe, um último sonho.

Mas nem isso te foi permitido, teus dias de sonhos últimos e de contemplação que ainda buscavas foram ceifados.

De tristeza morreste, é verdade, mas como se não bastasse fizeram-te morrer inúmeras vezes e, na derradeira, pelas mãos que manchadas para sempre estarão das palavras que não tiveram tempo de serem ditas, dos poemas que voaram contigo pelo caminho do invisível.

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Hoje, data em que te obrigaram a tomar outros rumos, permito que minha alma volite entre tuas palavras, tuas emoções e esperanças; a primavera que não teve a seu favor o tempo de existir.

 

Quando olho o mar, procuro entre o movimento das ondas o teu silencioso e distante olhar.

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 18

 Aqui te amo

Nos escuros pinheiros se desenlaça o vento

A lua fosforece nas águas errantes

Andam dias iguais e perseguir-me.

Às vezes amanheço e minha alma está úmida

Soa, ressoa o mar distante

Isto é um porto

Aqui te amo.

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Aqui eu te amo e em vão te oculta o horizonte

Estou a amar-te ainda entre estas frias coisas

Às vezes vão meus beijos nesses pesados barcos

Que correm pelo mar rumo onde não chegam.

Olham-me com teus olhos as estrelas maiores

E ainda porque te amo, os pinheiros, no vento,

querem cantar teu nome, com suas folhas de cobre.

 

 (Vinte Poemas de Amor e Uma Canção Desesperada)

 

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No Primeiro Dia

 

Quando os poemas me tocam profundamente, quando tornam-se poesias a correrem em minhas veias, costumo apossar-me do poeta, dizendo que ele é meu.

Hoje, 23 de setembro, deixo aqui minha homenagem a um de meus poetas de alma, transcrevendo abaixo não um de seus imortalizados poemas, mas desta vez, um poema dedicado a ele, escrito por um outro poeta.

 

Pablo Neruda, tua voz é inconfundível na poesia, teu jeito tão próprio de dizer do amor, da melancolia a jorrar pelas palavras como se lágrimas fossem.

 

Sinto meu corpo se agitar quando falas do fogo que arde no coração dos amantes…

 

Sinto vida, vibração e luz em tuas palavras, que sei brotarem de tua alma, de tua maneira de ver e sentir a poesia em cada momento em que a natureza se mostra aliada a cada ser pulsante.

 

Sinto solidão profunda naquele até breve que transmutou-se em adeus…

 

Amo-te, poeta, e à tua magia que me leva pelo espaço e pelo tempo, como uma ave a piar e a planar intensos sentimentos.

 

Só uma coisa não entendo, meu poeta… porque foste embora justamente no primeiro dia da primavera…

 

 

Boa noite, Pablo Neruda. Neste instante

Ouvi cantar o primeiro pássaro da primavera

E pensei em ti. O primeiro pássaro da primavera

Cantou, parece incrível. Mas ainda existem pássaros

Que cantam em noites de primavera.

 

Estou sozinho e tudo é silencio. Meus filhos

Foram dormir. Minha revolta, provisoriamente

Também foi dormir. A verdade, poeta

É que te tenho presente, a cerveja está bem gelada

E o pior ainda está por vir.

 

Hoje pensei em Lorca. Vi-o nitidamente

Caminhando entre soldados. Seus olhos

Me olhavam entre dois canos de fuzis, desfigurados.

Hoje soube que teve medo, teve medo de morrer

Teve medo, mas não dizia nada.

Agora, no entanto, a noite, amigo

Se estende sobre nós, plantada de lírios

Faiscantes. Lorca morreu. Outros morrerão

Talvez tu, talvez eu. O inimigo

Possui fuzis, o que não impede a primavera

ser saudada pelos pássaros.

Hoje mais do que nunca o mundo avança

Para uma Aurora ainda aprisionada.

Tentemos resgatá-la com poesia

Cada poema valendo uma granada

Como disseste imortalmente um dia

                                              Vinicius de Moraes (1948)

 

 

 

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Saudade eterna.

Faz vinte e nove invernos que moramos em planos diferentes e meu coração por vezes se consola sentindo-o bem.

Guardo muitas lembranças que afloram na memória logo nas primeiras horas da manhã, em muitas manhãs, manhãs sempre mágicas porque desfilam á minha frente as pessoas que tanto amo.

E desfiando-as uma por uma, entre uma espreguiçada e um bocejo, revejo quase toda a minha vida feita de momentos felizes, outros difíceis e outros insuportáveis, pelas perdas prematuras, envolvidas em muito sofrimento.

Mas meu coração decide, neste instante, pelas lembranças da infância.

Sempre que a vida se mostra quase que insustentável, procuro reavivar a criança que, apesar de tudo, ainda me habita.

O balanço feito no quintal (caí de costas, lembra-se?), as frutas tão bem cuidadas do pomar, as jabuticabas ainda em flor (desce daí, menina! se as florzinhas caírem, não haverá o que saborear!), minha primeira valsa, meu primeiro acorde no violão, sua letra rebuscada na escrita de um poema, a implicância com os gatos mas que sempre os acariciava escondido, o conversar com as plantas, as histórias que arrepiavam nossos cabelos, sua voz embargada ao lembrar de seus pais, o amar a Natureza, o louvar a Deus.

Lembro-me também quando o senhor nos aparava as unhas com aquela faquinha especial, antes de irmos para o colégio e, quando voltávamos, apontando nossos lápis para que pudéssemos fazer nossas lições.

Naquela época eu gostava muito de matemática, mas já era incentivada pela professora de português a escrever cada vez mais e tudo que eu sentisse de importante, inclusive meus sonhos.

Não sei em que momento de minha vida passei a entendê-lo, senti-lo, conhecê-lo melhor, papai.

Sei que ainda era menina e, por saber conversar melhor com o senhor, meus irmãos quando queriam alguma coisa, pediam para que eu pedisse, por ter mais jeito no falar.

E por conta disso fui rotulada de “a filhinha do papai”.

Mas isso não me fazia sentir diferente deles e não me incomodava em nada porque, atendendo a meus irmãos, hoje tenho a lembrança de chegar de mansinho perto do senhor, Paapaiiii… Miiiau,  respondia o senhor, Por que “miau”, papai? Porque sempre que você vem pedir alguma coisa, você não fala, você mia!

Embora com medo de me enganar, penso que a mais doce e terna lembrança que tenho é de quando, ainda muito pequenos meus irmãos e eu, éramos embalados em seus braços, ouvindo suas canções de amor.

Um por um, nos embalava andando lentamente ao redor da mesa da sala de jantar, cantando músicas sentidas, verdadeiras poesias de um tempo em que ser romântico não envergonhava a ninguém.

E o senhor, meu pai, além de cantar tão afinado, era um verdadeiro poeta no seu interpretar, um poeta que via amor em tudo e, por isso, muitas vezes incompreendido e magoado.

Cada um que adormecia, o senhor colocava na cama e cobria de mansinho, apagando a luz.

Todas as noites.

Eu sempre pedia para ser a última, lembra-se?

Gostava de ouvir sua voz, de ver aquela expressão de ternura a se expandir em seu rosto e em seus olhos; aquele carinho manso, suave como a presença de um anjo.

Sentia-me tão segura em seus braços…

Então fechava os olhos e o senhor me levava para dormir.

Mas quando ia colocar-me na cama, eis que eu abria os olhos e esticando os bracinhos e sorrindo… Papai, ainda não dormi; cante mais um pouquinho para mim, só mais um pouquinho..

E o senhor não resistia ao meu pedido, não é?

Carregava-me novamente e novamente retomava seu cantar, suave, baixinho.

Por esta razão eu queria ser sempre a última.

Quantas lembranças de sua vida deveriam aflorar naqueles momentos… e quanta paciência e dedicação, depois de um dia talvez exaustivo de trabalho…

Lembrando-me de nossas travessuras, que foram muitas e bastante criativas, a sua forma rígida de nos educar foi para nós uma fase de rebeldia, descontentamentos e proibições.

Hoje vejo pelo prisma da formação de caráter de cada um de nós e da preocupação e grau de importância que o senhor tinha em nos preparar para a vida.

Tenho certeza que esse rigor também vinha de lembranças de perdas já ocorridas em sua vida das quais não havíamos participado e, por isso, não tínhamos noção do tamanho de sua dor, sua saudade, sua vontade de rever e reviver momentos junto a seus pais e irmãos, guardados em seu coração.

Assim como no meu existem estes.

Dizem que amor não se agradece, mas… Obrigada, meu pai, pelo seu carinho e dedicação.

Por certo, nesses cantares o senhor despertou em minha alma o lado sensível, terno e profundo da vida.

Talvez seja essa a principal razão pela qual hoje, através de palavras consigo expressar, mesmo que aos tropeços, um pouco do que me vai pela alma.

Obrigada, papai.

Da filha que te amará eternamente,

                                                          Isabel

 

 

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Como estou prevendo uma possível viagem ao encontro da Natureza, deixo aqui esta mensagem com alguns dias de antecedência.

 

Consultando enciclopédias, encontrei algumas informações sobre a Páscoa.

Sei que algumas pessoas as conhecem, mas nunca é demais.

Comemoração antiga, onde na Idade Média o povo pagão germânico cultuava a deusa da Primavera, cujo nome, Ostara, significava páscoa; na mitologia grega conhecida como Deméter e na romana, Ceres.

 

Páscoa, do hebraico Pessach, significa passagem.

Para os pagãos, passagem do inverno para a primavera.

Para os judeus, da escravatura do Egito para a libertação na Terra prometida.

Para os católicos, da vida terrena para a vida espiritual de Jesus.

Permitam-me acrescentar que, para os poetas, da dor e da desilusão para o ressurgimento constante dos sonhos da alma.

 

A simbologia do coelho representa a fertilidade e dos ovos coloridos e brilhantes, a luz solar.

Do cordeiro, o espírito renascido.

 

O que mais posso dizer sobre a Páscoa… tantas lembranças… família sempre reunida…

Tinha horror em ir à igreja beijar Jesus morto. Chorava e não dormia noites seguidas, diante da visão de tanto sofrimento.

Vem-me à mente, enquanto escrevo, que talvez este tenha sido um bom motivo pelo qual tanto relutei, na minha adolescência, em ver uma pessoa morta.

 

Mas gostava mesmo era de participar da procissão, onde minha irmã Rosa e eu, vestidas de anjos, sentávamos em um patamar em cima de um jipe, ladeando Nossa Senhora.

Meus oito anos não me permitiam ter a noção daquele denso ritual e, por isso, quando eu avistava minha mãe na sacada do banco francês e italiano, na rua principal da minha cidade, cutucava minha irmã e então acenávamos para ela, chamando-a efusivamente, Mamãe! Mamãe!,  jogando beijinhos e sorrisos.

Completamente fora do contexto da Procissão do Encontro entre Jesus já morto e sua Mãe dolorosa.

As freiras faziam cara feia, o motorista do jipe dissimulava um sorriso e o padre vinha nos aquietar, dizendo ser a última vez que participávamos da procissão.

Mas como meu pai era muito católico e pertencia à Ordem Terceira de São Francisco, todo ano garantia esse lugar para nós duas, seus  anjinhos (do pau oco, dizia Margarida, a mais nova).

 

Lembro-me também dos nossos domingos de páscoa, nosso vovô Cintra cercado por seus filhos, netos e tantos outros compadres e amigos de meus pais…

 

Hoje em dia, supermercados e casas do ramo estão repletos de chocolates e ovos de páscoa já no início de março.

Depois de tudo vendido, Olha a promoção, dona! Compre dois e leve três! E agora, qual vai ser o próximo feriado, alguém indaga entre uma ansiosa escolha e outra; depois da data consumada, tudo termina como se nada houvera.

 

Tudo cai no esquecimento, como com outras datas ditas importantes.

Esquecimento não, porque há pessoas que nem sabem o que significa aquela ou esta data; apenas passam por elas, como passam pela vida apenas.

 

 

 

 Até a volta

 

 

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23 de Setembro

 

 

Se eu disser que dia 23 de Setembro homenageia-se Ricardo Eliócer Neftalí Reyes Basoalto, na certa alguns me perguntarão de quem se trata.

Mas se eu disser que nesta data é lembrada a morte de Pablo Neruda, todos saberão de quem falo.

Nobel da Literatura em 1971, desenhou seu último voo no espaço em 1973, devido a um câncer, encontrando eu em vários compêndios que Neruda morreu de “tristeza” ao ver dissolvido o governo de Allende.

Rendo-me neste e em todos os instantes de ternura ao seu encantamento, que transbordará para sempre das palavras que ele utilizou para eternizar sua expressão de  amor, de saudade, de carinho, de busca, toda a sua lírica.

Deixo aqui um dentre tantos poemas de minha predileção, imaginando-o a declamar:

 

Nos Bosques, Perdido

 

Nos bosques, perdido, cortei um ramo escuro
E aos lábios, sedento, levante seu sussurro:
era talvez a voz da chuva chorando,
um sino quebrado ou um coração partido.

Algo que de tão longe me parecia
oculto gravemente, coberto pela terra,
um gruto ensurdecido por imensos outonos,
pela entreaberta e úmida treva das folhas.

Porém ali, despertando dos sonhos do bosque,
o ramo de avelã cantou sob minha boca
E seu odor errante subiu para o meu entendimento
como se, repentinamente, estivessem me procurando as raízes
que abandonei, a terra perdida com minha infância,
e parei ferido pelo aroma errante.

Não o quero, amada.
Para que nada nos prenda
para que não nos una nada.

Nem a palavra que perfumou tua boca
nem o que não disseram as palavras.

Nem a festa de amor que não tivemos
nem teus soluços junto à janela…

Pablo Neruda

 

 

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