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Posts Tagged ‘presença’

Luz!

 

miguel8

 

 

Sinto tua presença.

Ali, nos três degraus à minha frente, a nos observar.

Tua veste branca ofusca meus olhos, mas consigo ver teu sorriso apesar de tua fisionomia contrita, preocupada e eu não sei porquê.

 

Na tua bainha, tua espada, mas é em teu gesto que a chama flamejante arde.

É no teu abraço etéreo que sinto os laços do teu cordão a nos unir em harmonia e gratidão.

 

E eu emudeço enquanto os presentes esperam que eu murmure as palavras doces que uma mãe costuma dizer a seus filhos.

As lágrimas chegam como alívio mas a voz calou-se em meu coração; não há como dizê-las.

 

Desculpar-me pelo silêncio… mas como fazê-lo se este momento é de uma sublimidade única, se te vejo abençoando nossos passos, ungindo nossos olhos invisíveis que a tudo vêem?

 

Apenas espero.

Que a emoção se abrande, que os olhos se sequem, que a palavra retorne.

Enquanto embebida por tua presença, apenas sigo com os demais.

 

Sei que um dia farás uso de tua espada e, depositando-a sobre minha cabeça, lerás em meu coração se faço por merecer esta veste branca como a tua.

Firmarás então os laços que um dia nos prometemos, naquele momento distante no tempo, quando nos vimos na Criação.

 

Miguel, meu protetor, não permita que eu me esqueça desse momento de Amor e de Luz.

 

 

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Há tanto o que lembrar… da infância, da mocidade, da fase adulta.

Há tanto o que contar… tudo borbulha como se fosse urgente o tempo de recordar momentos de uma só vez.

E com as lembranças emergem as vozes e sorrisos de nossas mães (Anámaria, Anámaria, onde está você? dizia sua mãe); das brincadeiras de teatrinho que fazíamos, das músicas que cantávamos (você nos fazia chorar com a canção do Pobre Peregrino); dos namoradinhos e bailes de gala, onde íamos desfilar nossas alegrias; de nossos passeios pelos jardins de minha cidade, quando você ia passar suas férias levando em sua bagagem as novidades da capital.

Me vem à mente neste instante, uma lembrança tão remota de quando, em sua casa ainda lá na Pires da Mota, vi pela primeira vez uma propaganda do Toddy na televisão e, no intervalo, corremos para a cozinha para fazer o nosso, batido no liquidificador, conforme orientação de seu irmão Roberto.

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No entanto, neste momento, nenhuma palavra reflete meu sentimento presente.

Achei que o silêncio seria a forma mais absoluta de ainda tê-la por perto, posto que o fato tão drástico pegou a todos nós de forma tão brusca, traiçoeira, porém inevitável.

Já trazia em mim o silêncio de uma perda há três dias, agora acrescentada de mais esta.

Semana de desolação e tristeza.

Por isso, calei e profundamente senti aquela dor que sente somente aqueles que, esperançosos de um tempo melhor, não têm a chance da presença, da palavra reconfortante, do sorriso último.

Mas ontem, prima querida, fiquei a me interrogar se era você mesma quem vi sentada à nossa frente a sorrir e (veja só!) com seu alicatinho de cutícula nas mãos, a cutucar os dedos?! levava-os à boca e sorria para nós.

Foi você mesma quem vi envolvida por nossos sentimentos de amor e luz, no centro daquele templo, onde estávamos reunidos na sua presença de paz e de certeza do caminho que traçou para seus pés?

Junto à música ouvi seu riso, sua voz a alcançar notas tão altas, afinada como sempre foi, como um pássaro maravilhado pela luz de sua própria natureza.

Foi você mesma, querida Ana, sei que sim!

Da mesma forma que há décadas atrás comigo conversou e que, pela primeira vez, me fez pensar em buscar a espiritualidade dos e nos fatos, das e nas pessoas e, em mim mesma.

Você me incentivou e ajudou a descerrar o primeiro véu; foi quando a vida começou a me parecer outra, mais profunda, com um sentido mais intrínseco que até hoje busco entender, assimilar e nele me situar.

Aqui, diante desta rosa, símbolo de sua alma, eu a reverencio pela pessoa incrivelmente linda e doce, batalhadora e persistente, alegre a altruísta que foi, como lembrou nossa prima Marcela de que você, querida Ana, sorria pelos olhos.

Mas eu a reverencio principalmente por ter, um dia, me tomado pelas mãos e mostrado que a vida é muito mais do que vemos, do que sentimos e entendemos; que a vida é maior e melhor quando mergulhamos nas buscas, abandonando a superfície, descobrindo na interioridade a diferença entre estar e ser.

Nossos telefonemas cessam; não ouvirei mais sua voz suave, sua risada, seus anseios, seus estímulos e também suas dúvidas, mas nossa comunicação permanecerá, talvez agora por sonhos ou de alguma outra forma.

Você atingiu seu ponto de breve descanso, enquanto sigo pelos meandros do caminho que escolhi, trazendo a certeza de que em nenhum momento você esteve só, como não está agora e nunca estará.

Há tanto o que lembrar… minhas irmãs e primas contariam outras passagens, mais engraçadas, divertidas, porque você imprimiu marcas diferentes em diferentes pessoas.

Há tanto o que contar… quem sabe um outro dia; hoje quero simplesmente falar do meu profundo amor por você.

Vai em Paz, querida prima, que tudo está feito.

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Sinto saudade de minha mãe.

Sua voz, seu sorriso, suas brincadeiras, seus acenos.

Às vezes falava alto, gritava mesmo, perdendo sua santa paciência, mas tudo porque queria o bem de todos.

Por puro amor.

 

Sinto saudade das vezes sem fim que me chamava a um canto, a contar-me pensamentos colhidos em sua vida.

Sim, compartilhava suas descobertas, suas alegrias, suas surpresas e desalentos comigo, dando a mim uma parte do seu coração, aquela parte de angústias, mais tarde confirmada pela sua doença.

Lembro-me do final do ano último, seus olhos buscando nos meus um raio de esperança de mais um ano a viver.

Mas não aconteceu.

 

Hoje continuamos a nos encontrar.

Confesso que para mim de uma forma mais difícil, mas não mais distante.

Compartilho com ela, eu desta vez, os medos, alegrias e tristezas e sustos que vêm acontecendo com certa frequência.

Mas quando me sorri aquele sorriso luminoso, espelho de sua alma, a sensação de que tudo torna-se mais brando me invade, como a calmaria depois da tormenta.

E mais amena, consigo contar-lhe das pequenas coisas que fazem meus dias especiais.

Consigo até contar-lhe dos meus sonhos.

E ela me ouve e sorri.

Às vezes balança a cabeça, chega mais perto, procura uma palavra, um olhar.

 

Pressinto, neste momento, sua presença e peço baixinho que me afague mais uma vez os cabelos, que cante canções de ninar, que me embale e me faça dormir.

Entre uma lágrima e outra, peço por sua proteção, sua força, sua determinação e crença que tudo vale à pena, como tudo sempre fez para aquietar meu desassossego.

Assim adormeço com a certeza de que ela me segura em seus braços de amor.

 

Perdoe-me minha mãe, talvez eu não tenha crescido a contento de seus esforços, por não ter conseguido enfrentar de frente esta vida sem você, sem os seus conselhos, sua alegria, seu carinho…

Há tantas passagens boas e alegres que vivemos e que eu poderia contar, mas é que ando bastante assustada com a vida e tenho medo de ferir-me mais.

 

Saudade, minha mãe, saudade.

Pediria apenas mais uma coisa: passar um dia inteirinho a seu lado.

Não precisa ser hoje.

Pode ser para sempre.

 

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