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Posts Tagged ‘presente’

 

 

E o menino continuou a correr pelos campos de centeio, como se pássaro fosse.

Suas mãos tocavam os talos tenros e dourados, como uma colcha macia bordada pelo Tempo, da cor do sonho que sonhara de olhos semi cerrados, antes de entrar, pela primeira vez, em um templo.

Um sonho de vôo pleno onde, num ímpeto de emoção e liberdade, levantava seus braços, ficava nas pontas dos pés como se assim pudesse tocar o céu, sem se dar conta direito de que o Sol já o abraçava por inteiro.

 .

Se fez uma prece, não me recordo, mas sua existência já era a própria prece!

 .

Sentiu o aconchego do silêncio, as mãos da brisa em seus cabelos, o corpo leve a caminhar sentimentos só seus.

 .

De volta à realidade, pressentiu que seu vôo fora marcado no coração e na mente, não sabia ainda por quê.

 .

Mas quando entrou no templo, lá estava esculpida em uma parede de luz, a imagem sublime daquele que, de braços levantados em plenitude infinita, comungara com seu Deus e a Seus pés depositara sua vida, que recebera um dia como divino presente.

 .

E agora o menino está aqui, à minha frente, e eu o vejo agigantar-se solene e poderoso, elevando seus braços aos céus, transmutando sombras em luz, silêncio em sons, mundano em divino.

 .

É o mesmo menino, eu sei.

Apenas se transforma em um guerreiro dourado, para cumprir sua tarefa de Amor.

Depois, volta a ser o menino que sempre foi.

 

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cerejeira1

 

 

Cerejeira, cerejeira…

com teus galhos quase secos

quase negros

voltados aos céus como em prece!

 

Logo tua pele eclodirá

em milhares de florzinhas rosas

quase brancas

como dádivas de seu pedido à Natureza

de perfume, beleza e ternura

 

Maravilharás meus olhos

que, como encantados,

acompanharão essa transmutação

como se mágica fosse

 

Todo ano, todo encanto

como surpresa de primeira vez!

 

Me fazes sempre lembrar

da vontade de ter junto à mim

aquele que habita meu coração

 

Por certo comigo desvendaria

tua leveza, tua beleza,

Senhora Alteza Cerejeira,

hoje em prece e luz

 

 

 Em homenagem à cerejeira cultivada por minha amiga irmã Elizabeth Panebianco, em sua casa de campo

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Início de um ciclo, na continuidade de tantos outros.

Borbulham lembranças em minha pele; cheiram a mel, a ternura, principalmente a saudade…

 

Brincávamos com tudo o que nos haviam presenteado nossos pais, avô e padrinhos, no quintal de nossa casa.

Era manhã, fazia sol, nossos risos envolviam as flores, as plantas e aquele céu azulzinho, azulzinho, sem uma nuvem sequer.

 

Foi quando mamãe, preparando uma deliciosa sobremesa, pediu para eu pegar algo de que precisava, na quitanda da esquina de casa.

Mamãe sempre fazia isso e eu sempre atendia seu pedido.

Mas naquele dia eu queria ficar junto a meus irmãos, brincando, correndo, simplesmente rindo ao tempo.

Puxa, mamãe! a senhora tem cinco filhos mas só pede para mim!?!

Quem sabe, no caminho, você encontra seu príncipe encantado! respondeu ela, sorrindo.

 

Ah! como minha mãe me conhecia, sabia de meus desejos secretos…

Fui pega de surpresa, incrível!, um pensamento que nunca me havia ocorrido nas tantas vezes que já havia feito aquele trajeto.

Acreditei.

Acreditei e fui.

Quem sabe, viajando na mesma caravana dos reis magos, eu pudesse encontrar um príncipe que, ao contrário dos outros que levavam presentes ao Menino, estivesse trazendo um presente para mim, para encantar meus olhos, meu sorriso e fazer bater mais forte meu coração.

Era Dia de Reis de um ano que mora em mim.

 

 

Como disse em anos anteriores, por vários motivos íntimos escolhi esta data para inaugurar meu blog que hoje completa quatro anos; uma criança que engatinha entre as palavras, na esperança de nelas depositar a simplicidade, a sinceridade e todo o amor de seu coração.

 

 

 

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ofertorio

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Mais um ciclo religioso se completa, culminando com a comemoração do aniversário de um dos maiores avatares conhecido (pelo menos de nome) pela humanidade.

Digo religioso porque há vários ciclos que se sucedem em nossas vidas, constantemente, mas parece que nos lembramos somente daqueles instituídos social e religiosamente.

 

Não quero me estender citando detalhes de ciclos lunares, solar e das modificações / estações que a Natureza nos oferece.

 

Há também o ciclo temporal e é neste que quero me deter embora, em princípio, todos os outros estejam inseridos nele.

Mas quero ir mais fundo do que simplesmente falar em semanas, dias, horas, minutos.

 

Sempre me pergunto porque é que comemoramos datas,estações,passagens de ano e mesmo natais, e não comemoramos cada segundo de nossas existências.

Sinto que são nesses segundos que vamos construindo a razão da vida, cada um com suas virtudes (todos temos pelo menos uma) e com defeitos que vão nos fazendo crescer, quando com eles aprendemos a lição do momento.

 

Por que somos tão superficiais e banais com nossas próprias vidas, esse presente que cada um de nós recebeu, constante e pulsante, construído de nossas vontades, tristezas, alegrias, descobertas, prazeres, satisfações, decepções, aceitações e, principalmente, de nossos sonhos?…

Penso que esse é o maior presente, porque é no exato instante em que o recebemos que nos é dada a oportunidade única de nos conhecermos,nos desconhecermos,nos surpreendermos,nos encontrarmos e desencontrarmos dos nossos próprios sentimentos, do outro, do que ainda é velado mas que em algum momento será desvendado.

E, no entanto, nos preocupamos com presentes envoltos em laços brilhantes, grandes, coloridos; nos preocupamos em enfeitar a casa com guirlandas, imagens, luzes e músicas festivas.

 

Por que enlouquecemos nessas épocas do ano (natal, ano novo, carnaval) e nos esquecemos de comemorar a vida enquanto nos é possível?

 

Por que comemoramos o ano novo se ele pode ser renovado, redescoberto a cada segundo de nossa existência?

 

Por que esperar a data do aniversário, se aniversariamos a cada segundo de alegria, mesmo que dure apenas esse segundo?

 

É muito bom presentear os outros, mas será esta a única forma de expressarmos nosso carinho? será que amar as pessoas já não basta mais?

 

O que fazemos com o que aprendemos a todo instante, se não aplicá-los implica na ausência de uma razão para ser?

É isso: a vida não tem razão de ser se deixarmos apenas o tempo escorrer entre os dedos e os dias do calendário e nos preocuparmos somente com o aparente querer, o aparente amar, o aparente doar, o aparente ter e, o pior, o aparente ser.

 

Neste ponto quero abrir um parênteses e falar do amor que sinto pelos verdadeiros poetas, simplesmente porque se expõem e se entregam, às vezes até com medo de se descobrirem para depois se encontrarem em si mesmos, instante a instante, mesmo que em seguida se percam na primeira esquina.

Sabem da magia (e como sabem!) do instante seguinte, onde novamente se encontrarão e permitir-se-ão sonhar com a vida que vão tecendo, verso a verso, vivendo assim plenamente cada momento.

Alguém já disse que o poeta não tem medo de sofrer; seu único medo é o de não viver.

 

Precisamos (e eu me incluo) aprender a comemorar a vida de forma a que sejamos dignos de tê-la recebido e, se pretendemos comemorar algumas datas, que possamos nos entregar ao seu verdadeiro significado, à sua essência, à sua razão de ser.

Agradeça o presente que recebeu, neste Natal e em todos os segundos de sua existência!

 

 

Nota: Parto de viagem e retornarei a este blog em janeiro.

Nesse meio tempo estarei vivendo o que me cabe, como costuma dizer um grande ser humano e poeta.

 

 

 

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 .

Hoje, não.

Hoje não quero pentear tristezas

pintar trêmula boca

roer unhas cansadas

 

Hoje, não.

Hoje não quero objetos perdidos

compasso sem ponta

espinho sem flor

 

Hoje, não.

Hoje não quero morrer instantes

roupas puídas

gestos cortantes

 

Hoje, não.

Hoje não quero ver esta face

corroída no espelho do tempo

eterno inverno

 

Hoje quero cantar

dançar minha alma

escrever cartas

lembranças sem medos

 

Hoje quero me ver

prazer presente

um presente qualquer

prazer

 

Hoje quero encontrar-me

saltando do canto

do encanto do olhar

e do riso que me tece

 

Hoje quero que seja esta a que me despe

 

 

 

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Sempre me perguntava o porquê de gostar tanto de pérolas.

Hoje, mais que nunca, sinto-me atraída, fascinada por elas, como se remexendo dentro de minhas entranhas se concha fosse.

Depois de um tempo encontrei o motivo, enquanto olhava o colar de pérolas de minha mãe, a escorrerrem entre meus dedos como lágrimas do mar.

Perdida naquela contemplação veio-me à mente a formação de tão delicada pedra, apesar desse assunto já ter sido abordado quando reunidos estávamos na sala de jantar por ocasião de meu aniversário, data em que ganhei um anel de pérola de minha irmã.

Mas como que hipnotizada por elas, em plena e assustadora identificação, fui repetindo para mim mesma, Algo penetra na ostra e esta se incomoda com o invasor; a dor é tanta que, a tal ponto, para se proteger, vai envolvendo-o com o nácar resultante dessa agressão, até que esteja totalmente coberto a ponto de não feri-la mais.

E o que era dor transforma-se em pérola.

Soou-me na mente as palavras de alguém ali presente, já não me lembro quem, Pérolas são feridas curadas, são feridas cicatrizadas, ao que minha mãe completou, Tudo que é valioso vem de dentro!

Há guardada dentro de uma concha, em algum lugar do tempo, uma pérola cultivada, essa que agora sou.

Quizera poder depositá-la a seus pés no dia de hoje, mas não sei em que estrela do mar você está adormecido.

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Quem sou eu

para que a onda do mar venha até onde estou

e se quebre aos meus pés

em espuma e murmúrios

 

Quem sou eu

para que o mar permita que eu brinque e pule e cante

enquanto envolve meu corpo

em força e poder

 

Quem sou eu

para que o sol mostre as ilhas ao redor e os navios tão distantes

a gemerem seus lamentos

ao mais profundo do oceano

 

Quem sou eu

para que o Tempo traga lembranças em seu manto

vividas em outras praias

fazendo-me ver criança a catar conchinhas para castelos enfeitar

 

Quem sou eu

para que a lua me banhe com clarão e lágrimas

por sentir no ar o perfume dos que já se foram

sem algum vislumbre dos que virão

 

Quem sou eu

para que esta escuridão da noite me trague por inteira

sentada nesta pedra

onde brilha a imagem de uma oferenda aos céus

 

Quem sou eu

para que o Universo me presenteie com esta brisa carinhosa

que faz esvoaçar meus cabelos

minha alma

 

Quem sou eu

para que Itararé de São Vicente me acolha em seus braços

com tanta doçura, magia e leveza

 

Quem sou eu

pergunto ao silêncio embriagador do por do sol

um pequenino grão de areia responde-me ele

beijando-me a boca e o riso

como se faz a um eterno amor

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