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Posts Tagged ‘prisão’

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É um periquitinho australiano (verdinho como alface americana) que habita minha casa desde 16 de Abril.

Minha vizinha, Maria Lúcia, uma senhorinha de 94 anos e que tinha uma vida bastante ativa (ia a restaurantes todos os dias, fazia aulas de pintura e de modelagem em cerâmica, adorava teatro, concertos e cinema) foi internada antes da Páscoa porque um dia resolveu não se alimentar mais.

Simplesmente.

Como ficou mais de um mês hospitalizada, me ofereci para cuidar de seu periquitinho.

Depois de um tempo, quando ela voltou para casa, a cuidadora e a enfermeira procuravam alguém que quisesse ficar com o bichinho.

Foi quando me ofereci mais uma vez (pois já havia um laço de amor entre nós) e assim, Plin, nome dado pela Maria Lúcia, veio alegrar e enfeitar minha casa.

Ou melhor, veio modificar a rotina de minha vida.

Plin (eu o chamo de Plingo) acorda entre 6:45 e 7:00hs

Converso um pouquinho com ele e, já bem acordado, canta por uns bons minutos, como se estivesse me contanto o sonho que teve.

Depois vai se alimentar (seu café da manhã) quando recebe sua comidinha e sua água fresca e limpinha.

Após eu higienizar sua casinha, entre 10:30 e 11:00hs Plingo toma banho e como é bom vê-lo brincando na e com a água.

Corro pegar o celular para filmá-lo, mas eis que já saiu da água e só vai voltar para ela quando eu virar as costas, como se estivesse a zombar de mim.

Adora música, principalmente baladas e blues, além de canções nas vozes das divas do jazz.

Quando vou regar as plantas do terraço deixo-o por perto para ver e ouvir a água jorrando da mangueira.

É quando enlouquece de tanto cantar e só fica mais eufórico quando as maritacas (suas parentes) vêem cantar em cima do telhado pela manhã e à hora do por do sol.

É uma festa e eu me delicio com toda essa algazarra!

Já conheço seus piadinhos de fome, de susto, de chamamento, de alegria e de carinho.

Digo de carinho porque ensinei-o a dar beijinho, apesar de que dia desses eu me descuidei e ele me deu uma valente bicada no queixo.

Estou tentando familiarizá-lo com minhas mãos para que futuramente venha sentar-se em meus dedos, mas ele ainda não confia em mim.

Dorme às 19:00hs e depois desse horário é proibido transitar no escritório (dorme lá nas noites de frio).

Antes de deitar-me vou espiá-lo e lá está ele, agachadinho no poleiro, parecendo uma bolinha estufada de penas, com a cabecinha enfiada debaixo de sua asinha.

Comprei uma gaiola linda, clara e grande; coloquei um galho seco dentro para diferenciar e proporcionar outros lugares para ele passear, além de uma ótima alimentação e muitas frutinhas.

Na verdade, me corta o coração em vê-lo preso na gaiola, embora saiba que se eu soltá-lo, não saberá voar alto e tão pouco procurar alimento (tenho esperanças de um dia poder soltá-lo, que seja, pela sala).

Ouvindo seu gorjeio tão gostoso e constante, vem-me um pensamento (não querendo justificar esse cativeiro) de que todos nós estamos presos de uma certa forma, em gaiolas invisíveis que nos limitam uma maior expansão, dominados que ainda somos por ignorarmos nosso próprio potencial; e assim, nos debatemos e muitas vezes até chegamos a nos ferir e a ferir os outros.

Como meu Plingo, não temos asas podadas, mas não sabemos ainda o que fazer com elas ou o quão alto podemos alçar nosso vôo.

Perdoe-me leitor, por tomar seu tempo; a quem é que pode interessar a rotina de um periquito senão à mim, que estou apaixonada por ele?

Bom… com licença que agora é hora d’eu cantar para o Plin dormir; não sei muitas canções de ninar, mas canto bem baixinho, baixinho mesmo.

É uma hora mágica esta, porque é uma forma d’eu externar meu amor por ele e de mostrar que no meu coração não há grades, mas apenas gratidão pela alegria que ele me proporciona com sua existência.

– Boa noite, Plingo, meu pedacinho de Deus!

 

 

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32

32 Mortos neste final de semana.

 

 

 

 

Para quem preciso pedir permissão

 

 

para poder sair desta prisão

 

 

domiciliar que se transformou

 

minha casa?

 

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Liberdade

… e um dia, de tão encantada que ficou, pegou escondido na cozinha um lindo vidro e, já à noitinha, resolveu pegar alguns vaga lumes para observá-los.

Entrou sorrateiramente pela porta dos fundos, subiu aquela imensa escada sem fazer um ruído sequer e trancou-se no quarto.

 

Pronto! não morreria mais de medo das sombras que se projetavam e cresciam naquelas paredes tão antigas.

Os móveis austeros e enormes não mais roubariam seu sono.

Não mais ouviria sussurros aterradores vindos por detrás dos quadros.

 

Pegou um fio de seda e passou-o pela tampa do vidro, pendurando-o no lustre.

Depois deitou-se naquela cama antiga, de reis e rainhas que não mais existiam.

Sentiu-se feliz com o quarto todo iluminado pelos vaga lumes.

E os bichinhos, acendendo e apagando seus lumes, esvoaçavam dentro do vidro, como pequenas lanternas, a tudo iluminando e colorindo.

 

Na manhã seguinte, antes do café no jardim junto aos pais e avós, a pequena Sara armou perto de sua janela também enorme, uma tela quadrada de trama bem fechada e lá soltou seus vaga lumes, para que pudessem respirar e voar melhor.

 

Quando a noite novamente chegou e quando conseguiu livrar-se de todos aqueles talheres, copos, mesuras e recomendações de todos os adultos, desabalou escada acima, sob o olhar reprovador da babá.

 

Deitada e coberta,  já não se sentia apenas um minúsculo objeto a compor a imensidão que a cercava.

Agora tinha amiguinhos que traziam alegrias para seus olhos.

Mas… reparou que a luz já não era tão intensa como a da noite anterior.

Mesmo assim adormeceu.

 

Quando acordou decidida a executar seu novo ritual antes do café da manhã, encontrou os vaga lumes no fundo do vidro, desfalecidos.

Um deles, articulando as patinhas dianteiras com muita dificuldade, pediu para que Sara se aproximasse e ouvisse seu apelo.

Penalizou-se então dos bichinhos, sentindo-se muito envergonhada pelo seu egoísmo quando ouviu-o dizer, Por favor, abra a tampa do vidro; precisamos de liberdade para viver.

 

Sara então passou a dormir novamente na escuridão daquele quarto antigo.

Sem medo.

Com a janela aberta.

 

 

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Trazia a pequena urna nas mãos.

Com muito cuidado, delicadeza e com um sentimento de profunda ternura por aquela que houvera sido.

Entrou no elevador sem deixar que a porta se fechasse.

Acionou um botão e a porta de aço, no fundo falso do elevador, se abriu fazendo um ruído de séculos, mostrando atrás de si um depósito de grandes proporções.

Com algumas teias de aranha, uma claridade tênue que brotava de algum lugar, cheiro de antigo, guarda relíquias preservadas, preciosas.

Com seu vestido antigo azul noite, cabelos presos no alto da cabeça por uma fivela dourada, gestos precisos, porém suaves, ela entrou no recinto.

Abaixou-se, colocou a pequena urna talhada, conforme havia pedido, entre outros pertences.

Foi quando ouviu o barulho de alguém tirando o objeto com o qual havia prendido a porta.

E, pesada, se fechou, aquela do fundo falso, encerrando-a junto aos símbolos que cultivara anos a fio, décadas, séculos…

No corredor apenas um papel amarelo voada de um lado para outro.

Com uma caligrafia acentuada de mulher mostrava a quem quisesse ler Cuidado, não fechar a porta em hipótese alguma.

E por descuido foi fechada.

Achou um canto para si entre as relíquias, segurando a si mesma naquela urna.

Sentiu-se então, uma parte a mais daquele depósito, daquele tempo onde cada peça foi palpitante, essencial, foi vida.

Hoje estão sufocadas pela poeira da solidão.

São apenas peças mortas.

E o papel voava de lá para cá.

No chão, sem rumo.

Agora já sem qualquer serventia.

 

 

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