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Posts Tagged ‘quintal’

Meu Querido Pai

As lembranças são muitas e muitas são de seus aniversários.

Fogueira, rojões, quentão, famílias reunidas, vizinhança, amigos.

O beijo de minha mãe, sua adorada, o cumprimento de todos em abraços tão demorados e queridos.

Mas sempre vi, meu pai, em determinado instante, uma melancolia em seu olhar; talvez pela lembrança de seus pais e irmãos e suas festas de aniversário junto a eles… mas, logo em seguida, seus olhos voltavam a brilhar de felicidade.

Hoje sou eu quem está a lembrar do senhor desde madrugada, quando me levantei e fui até a janela da sala olhá-lo brilhando no espaço, junto aos outros queridos que hoje também são estrelas do meu céu.

O tempo fechado, nublado, escuro, não me impediu de vê-lo brilhando, com aquele brilho que só vi em seu olhar, meu pai, até este momento de minha vida.

E sei que lá o senhor está, até completar todo o seu ciclo.

Quando levantei-me pela manhã, peguei seu álbum de poemas para escolher um (que missão difícil!), homenageando-o neste dia que continua sendo especial para mim, neste dia em que sinto-o tão próximo, a me sorrir, a me abraçar, a me abençoar.

Então escolhi este poema, que também me traz tão doces e felizes recordações; pena, meu pai, que eu não tenha neste momento uma foto do seu quintal, mas aqui estão as flores da trepadeira que o senhor cuidou com tanto amor.

 

flor do papai

 

Visão do Meu Quintal

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Vejo e contemplo o meu quintal querido

Num conjunto de cores variadas

Pendendo frutos, flores e ramadas

Em um mistério de arte e de beleza

Vejo nisso de Deus a Sua grandeza

Que nos invade a mente e o coração

Sentindo em tudo um traço de união

Entre Deus e toda a Natureza!

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Com bela ramagem vejo a Trepadeira

Que esbelta e faceira

Dá sombra e abrigo ao querido amigo

Que dela cuidou

Quando na estiagem a chuva parou

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Além, vejo o Canavial no seu ciciar,

Ao doce soprar da brisa fagueira

Logo as Bananeiras, cachos a despontar

Viçosas e bacanas, que dá gosto de olhar.

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A Jabuticabeira (é conto de fadas!)

Toda carregada de fruto e flores

Onde as borboletas volteiam contentes

Em vôos silentes ou em revoadas!

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E fico a contemplar…

E vejo o céu e vejo o sol e vejo o ar

Passando por entre tudo que me cerca

Sem que eu possa falar

O que me vai na alma extasiada

Que em um pensamento mergulhada

Ouve a voz da consciência a badalar:

Tudo isso é Deus! Deus é o Autor!

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E eu, no meu nada…

Humilde e pequenino

Aguardo o meu destino.

 

 

João Rodrigues Nepomuceno

1.973

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o quintal 2

 

E então o menino descobriu o quintal.

Grande, ensolarado.

Na verdade, um campo aberto para correr até cansar.

Um escorrega para sentir um friozinho na barriga.

Um balanço para levá-lo até o céu.

Um pequeno lago para sentir o frescor da água a escorrer-lhe pela alma.

Alguns pequenos frutos para matar sua imensa sede de viver.

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Não sabia para onde correr primeiro e, por isso, abriu os braços e imitando um avião em voo rasante, percorreu todos os caminhos que se lhe apresentavam pela frente.

A sensação do vento em seu rosto, seus cabelos como asas ao léu, seu corpo a flutuar, seus pés resvalando na grama… tudo o deixava leve como uma ave que voa pela primeira vez depois de uma tempestade.

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Como descobriu o quintal, não sabe dizer.

Não sabe em que momento o vislumbrou, mesmo que de longe fosse.

Não se recorda se havia muro, se havia portão de passagem.

Apenas de uma coisa tinha certeza: não estava cercado com arames farpados.

E foi exatamente isso que o animou a entrar!

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Com cuidado sondou o quintal até aonde sua visão permitia; poderia haver um cachorro bravo escondido em algum canto, por que não?!

Depois sentiu-se mais seguro, mais contente, pensando no que diria se alguém ali encontrasse.

Mas à medida que adentrava o terreno, sentia-se cada vez melhor, como se estivesse em um lugar que já conhecera antes, mas que não se lembrava.

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Não havia ninguém.

Mas sentiu que ali existia vida.

Havia flores nos canteiros, havia lençóis macios dançando nos varais.

Havia música e que peculiar música!

Foi quando viu uma gaiola pendurada à sombra da mangueira.

Dentro dela um pequeno periquito mais verde que amarelo, olhando seus olhinhos negros nos olhos do menino.

Por um instante ficaram calados, se olhando.

Um silêncio de reconhecimento, um silêncio de carinho.

E depois, o periquitinho cantou para ele, saudando-o, dizendo de como era bem vindo!

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Foi quando sentiu o perfume de café coado naquele instante, naquela pequena casa que vislumbrou escondida atrás de um vasto e fascinante canteiro de tulipas!

E ainda correndo como se avião fosse, chegou à soleira da cozinha.

Pensou se deveria contornar a casa e bater na porta da frente, pois não tinha nenhuma intimidade para ir-se atirando pelos fundos.

Mas pensou, Já que estou aqui, por aqui entrarei… se for convidado, lógico.

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Quando pisou no primeiro degrau, à sua frente surgiu, assim do nada, braços que o abraçaram demoradamente, lábios que o beijaram carinhosamente e um sorriso simples mas verdadeiro, que o menino sentiu vir da alma daquela mulher.

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Hoje ele vai ao quintal quando quer, a qualquer hora.

Para correr, para brincar, para pintar, para admirar e conversar com a avezinha, para sentir o carinho das tulipas entre seus dedos, que está a copiar para cinzelá-las no metal.

Mas há momentos em que fica quietinho, quase que imóvel, sentindo na brisa a magia da vida.

Em tudo.

Em si.

Na mulher.

No quintal.

 

Este quintal é do menino Anizio Silversmith

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Estou indo ao encontro da Natureza, respirar ar puro, ouvir pássaros.

Poder, no final da tarde, sentar-me na escadinha do quiosque e assistir a mais um por do sol.

Com o coração pulsando amor e saudade.

 

Saudade da infância, dos aniversários alegres, dos infindos dias das crianças tão esperados e tão mágicos…

 

Lembrei-me então de uma passagem perto dessa data que minha irmã Rosa jura, de dedos cruzados nos lábios, que fui eu quem causou o episódio que logo mais vou contar, e eu, por minha vez, juro de pés juntos que foi ela a dar a cartada decisiva.

E assim estamos a jurar por todo o sempre.

Quantos anos tínhamos? Talvez 8, 10 anos.

 

Certo dia, no intervalo da aula, quando descíamos para o recreio da manhã, uma amiguinha nossa (que já não me lembro o nome), querendo contar vantagem para cima de nós… O quintal da minha casa é enorme!

A Rosa respondeu de imediato, O nosso vai até quase o outro lado do quarteirão!!

 

A menina sentindo que não surtira efeito algum… No meu quintal há vários balanços, um para cada irmão!

Então rebati, Além de balanços (que havia mesmo), no nosso quintal há gangorras para todos nós!!

É isso mesmo!, reforçava a Rosa.

 

Ela não se deu por vencida e irritada… Mas no meio do meu quintal há um enorme escorregador!!!!!

Minha irmã, indignada, não querendo que perdêssemos a “causa”, não vacilou um segundo, Isso não é nada! No nosso quintal há uma roda gigante!!

 

A menina arregalou os olhos e eu fiquei sem fala.

Uma roda gigante igual a essas de parque?

Igualzinha, não é Isabel?

Eu não conseguia falar, apenas balançava a cabeça.

O sinal de volta a aula nos salvou.

Saí correndo, mas com tempo de ver o ar triunfante de minha irmã e o assombro de nossa amiguinha.

 

O tempo passou e chegou o dia das crianças.

Estávamos brincando no quintal quando alguém nos avisou que havia algumas meninas nos chamando no portão.

Era nossa amiguinha acompanhada de um comitê de meninas do colégio.

Ficamos surpresas, mas descemos as escadas para recebê-las.

Oi, Rosa! viemos ver sua roda gigante! podemos andar nela?

Nós duas trocamos um rápido e sutil olhar e, pela primeira vez, vi a Rosa em apuros, sem uma resposta a dar.

Senti que não poderia deixá-la na mão, Ah!… que pena!!! meu pai mandou retirar ontem para consertar e não chegou até agora, disse eu sem gaguejar.

Todas ficaram decepcionadas, arrasadas mesmo e foram embora.

Nem lembraram das gangorras, pensei eu aliviada.

 

Passaram alguns dias e a menina… Rosa, a roda gigante já voltou?

Ela, fingindo a maior naturalidade, Ainda não; acho que meu pai vai devolver, não tem conserto… 

Essa é a versão de minha memória.

Essa é uma das deliciosas recordações que tenho de um dia das crianças, quando éramos felizes e sabíamos.

 

 

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