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Posts Tagged ‘respeito’

mãe de giz

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Minha irmã Margarida me enviou esta imagem.

No dia das mães eu gostaria de fazer esse desenho, disse-me ela.

Emocionei-me.

Eu que sempre tive mãe presente em tantos anos de minha vida, convivendo nossas harmonias e cumplicidades, sempre recebendo em meus cabelos seus afagos, em meus olhos seu luminoso sorriso;

Eu que sempre fui tratada de forma especial quando ardia em febre e também especial quando corria, feliz, pelos jardins de minha infância;

Eu que sempre ouvi palavras de conforto, de conscientização, de responsabilidade, de estreitos abraços de pura ternura;

Eu que sempre soube o que é ser amada por uma mãe;

Eu que continuo a reviver tantas lembranças e sentimentos inesquecíveis;

Eu que com tanto amor convivi, não sei avaliar essa dor retratada nessa imagem.

Emocionei-me.

Doeu tanto e tão fundo que só um pensamento que me veio à mente pôde amenizar toda essa solidão: o de minha mãe presente entre nós no dia de hoje, para que ela, com certeza, pudesse acalentar essa criança em seus braços, beijar seu cabelos e chamá-la de filha.

Abraçaria também sua pequena Margarida e todos nós, seus filhos, transmitindo-nos o calor de sua vida nesse gesto de amor.

Mas por certo, lá da estrela onde moram as mães que habitam a outra dimensão, a mãe dessa menina e também a nossa mãe estarão, neste momento, beijando-nos o coração.

 

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“Quando eu morrer… se pusessem uma lápide no lugar onde ficarei, poderia ser algo assim: “Aqui jaz, indignado, fulano de tal”. Indignado, claro, por duas razões: a primeira, por já não estar vivo, o que é um motivo bastante forte para indignar-se; e a segunda, mais séria, indignado por ter entrado num mundo injusto e ter saído de um mundo injusto.”  

                                                                            José Saramago

 

 

Nestes dias em que permaneci em completa incapacidade física, o que me restou de prazeroso, além de pouco me alimentar e muito repousar, foi ler bastante.

É verdade que dormi muitas vezes no meio das leituras, com palavras embalando minha alma em devaneios e só acordava quando o livro me caia das mãos.

Consigo ver o lado bom dessa quase inércia física, além da minha total vulnerabilidade; é que a febre traz consigo a alucinação e assim, meus pensamentos se apossam de meus sentidos; é quando me entrego toda aos sonhos mais impossíveis, aos desejos mais incontroláveis, a presenças eternamente invisíveis, a esperanças que se foram a cada final de estação.

Mas essa é outra história.

 

Nos meus momentos de lucidez, comecei a reler José Saramago e lembrei-me da data em que se foi para outras esferas, onde por certo continua com sua obra mágica, magnífica e instigante.

Sempre.

Deixo aqui a minha mais profunda saudade e uma pequena homenagem ainda que tardia.

Fui à minha micro-biblioteca e aleatoriamente peguei um livro dele, ou melhor, caiu-me às mãos o livro “As Palavras de Saramago” organizado e selecionado por Fernando Gómez Aguilera.

Lembrei-me do pensamento de Harold Bloom, crítico norte-americano, que diz  que “Saramago é um dos últimos titãs de um gênero literário que se está a desvanecer”.

Serve-me de consolo que, como a alma, as palavras também são eternas.

Efêmero é o corpo físico, mas a reflexão através de sábias palavras fortifica ainda mais o espírito, a mente, o caráter; diga-se de passagem, caráter este raro num tempo em que todas as virtudes morais estão, estas sim, se desvanecendo.

Sempre atento às injustiças da era moderna, vigilante das mais diversas causas sociais, Saramago não se cansava de investir, usando a arma que lhe coube usar: a palavra.

Gostaria de comentar uma citação que penso cair como luva à nossa realidade, neste exato ponto a que chegaram a dignidade e o respeito exercidos neste país de nome Brasil.

Na realidade, não quero comentar; as palavras falam por si mesmas.

Quero sim, convidar você para um reencontro com a inteligência e discernimento desse valiosíssimo ser humano e escritor, muitas vezes e por muitos, tão mal interpretado.

E mesmo que muitos continuem rezando o contrário, isso já não tem a menor relevância, porque a reflexão nos mostra como seus pensamentos continuam sendo atuais, vivos, verdadeiros, dignos e eternos.

Quisera poder dizer que o trecho que cito sirva apenas para este momento ruim pelo qual estamos passando, mas infelizmente ele se estende a perder de vista, de mãos dadas com nossos desencantos.

 

“Quando nós dizemos o bem, ou o mal… há uma série de pequenos satélites desses grandes planetas, e que são a pequena bondade, a pequena maldade, a pequena inveja, a pequena dedicação… No fundo é disso que se faz a vida das pessoas, ou seja, de fraquezas, de debilidades… Por outro lado, para as pessoas para quem isto tem alguma importância, é importante ter como regra fundamental de vida não fazer mal a outrem. A partir do momento em que tenhamos a preocupação de respeitar essa simples regra de convivência humana, não vale a pena perdermo-nos em grandes filosofias sobre o bem e sobre o mal. “Não faças aos outros o que não queres que te façam a ti” parece um ponto de vista egoísta, mas é o único do gênero por onde se chega não ao egoísmo, mas à relação humana.

Sustento que, quando descobrirmos o outro, nesse mesmo instante descobrimos a nós mesmos, algumas vezes no melhor, outras no pior, quando tentamos dominá-lo. Se chegarmos a uma relação com o outro em que a condição principal seja respeitar suas diferenças e não tentar sufocá-las para fazê-lo como a gente, então aparecerá em nós o positivo. Todos têm o direito a um lugar na Terra, não há motivo para que eu, pelo fato de ser branco, católico, louro, índio, negro, amarelo, seja superior. Não podemos nos dar ao luxo de ignorar que o respeito humano é a primeira condição de “convivialidade”.

Cada vez se torna mais claro, para mim, que a ética deve dominar a razão.

Se a ética não governar a razão, a razão desprezará a ética.”

 

 

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Tenho em mãos um livro que, acredito, poucas pessoas conhecem.

Da Companhia das Letrinhas, com ilustrações muito criativas, repletas de detalhes de gosto bastante requintado, A Maior Flor do Mundo é um livro destinado ao público infantil, escrito por José Saramago.

 

E porque está em sua estante de livros, pode alguém perguntar.

Porque em minha alma, respondo eu, mora uma criança de sentimentos naturais e que nunca irá crescer, além de ser perdidamente apaixonada pelas histórias de meninos e meninas que, por sua vez, moram no mais íntimo de cada poeta, cada escritor, cada romancista.

 

E ali está o retrato da alma deste escritor que me cativou, que continua desafiando meus pensamentos, que me apaziguou o viver em momentos de extrema aflição, que companhia me fez em noites insones e que me ensinou ver o mundo por um prisma muito especial.

 

Este dramaturgo que a muitos estremeceu diante do compromisso que tinha consigo mesmo, lealdade esta que muitas vezes não ia de encontro com o pensar de muitos e, por isso, não souberam respeitá-lo devidamente.

Este romancista polêmico que jogava um carvão em brasa sobre o gelo da hipocrisia e que, de tão incandescente, rompia com qualquer máscara revestida de uma moral que existe, até hoje, só nos tratados de bem viver contemplados em leis esquecidas pelos gestos e palavras daqueles que se dizem senhores do bem e da verdade.

 

Um escritor severo consigo mesmo, pleno que era da responsabilidade que existe no poder da palavra.

Um escritor que unia os extremos do universo, ódio e amor, completando assim o círculo da evolução dos sentimentos no homem.

 

Mas neste livro Saramago mostra-se despido de qualquer tipo de argumentação; expõe a face cristalina de sua alma, aquela parte de si que é pura essência, que permanece; que sonha, que imagina e que voa, entregando a quem queira estar com o menino que trazia em si e para si, do menino que talvez tenha conseguido apresentar para tão poucos…

Aquele garoto que, cansado de remar contra tantas tempestades, exausto adormeceu ao relento, agasalhado por uma pétala dA Maior Flor do Mundo.

 

É assim que dormes em mim, menino.

Sei que hoje comemoram teu aniversário e que talvez fosse prudente acordá-lo para assistires às comemorações, mas… dormes em mim, tal e qual o garoto que foi levado para casa, rodeado de todo o respeito pelo feito que atingiu.

Um respeito que ficaram te devendo ao longo desta travessia terrena que findou, mas que nem por isso alterou tua rota em busca de algo maior que tua própria vida.

 

Lendo e relendo este pequeno livro grande, procuro entre linhas a magia, o encanto que só quem não cresceu é capaz de vislumbrar.

 

Um dia disseste e aqui transcrevo, porque sinto-o a cada leitura que faço:

“O outro é um complemento que nos faz a nós maiores, mais inteiros, mais autênticos.  Essa é a minha própria vivência.”

A minha também, meu poeta, a minha também.

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Súplica

 

 

O que quero é que entendas meu coração.

Tua compreensão não precisa vir revestida de palavras.

Nem de alguma atitude.

Pode chegar silenciosa, será sempre bem vinda.

Sentirei teu respeito no ar.

 

Não preciso que  inventes situações para justificar teus pensamentos suspeitos, sem ao menos tentares saber da verdade.

As meias palavras cortantes, como pontas de vidro estilhaçado, ferem meu pequeno coração que só quer pulsar.

 

Diga, sim, meias palavras que façam com que eu me sinta apenas viva, já me basta.

 

Como com todos que não têm medo de viver, minha jornada também tem sido de pontos ásperos, amargos, difíceis… mas que estou sabendo não contorná-los, mas resolvê-los, estreitamente abraçada aos bons, importantes e ensolarados momentos.

 

E agora, quando busco somente um pouco de paz e serenidade, envolvida pelos meus mais sutis, doces e essenciais sentimentos, não tentes me banhar em águas turvas; elas já não me afogam mais.

 

Se não consegues, morro um pouco a cada instante que me feres, porque a ferida não se abre em meu corpo mas em tua alma; e mesmo de mãos atadas continuo minha busca pela paz que me planejei.

 

 

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“Oi!”

 

Atrás de um queijo especial, fui um dia desses a um mercado digamos que um pouco mais sofisticado mas, já lá dentro,  parei com minha busca para observar o tratamento dispensado a duas senhoras já com idades bem avançadas.

Não enxergavam direito e tudo perguntavam a quem quer que por elas passasse.

Alguns mostravam-se prestativos, outros um pouco menos.

As maçãs estavam lindas, brilhantes e consistentes, naquele cesto grande, colocado em evidência.

Mas entre elas observei uma já meio passada, podendo contaminar as demais.

E num piscar de olhos o tratamento mudou.

As senhorinhas foram ostensivamente maltratadas pelo funcionário do mercado.

Precisei segurar meu queixo porque não acreditava no que meus ouvidos contavam.

“Gente da sua idade não pode sair sozinha! Só dá trabalho, só atrapalha!”

A maçã já não estava passada; havia apodrecido mesmo.

Olhei penalizada para elas, no momento em que uma delas humildemente abaixou a cabeça e puxou pela outra, rumo à saída.

Alcancei-as e enquanto fazia queixa  ao gerente, minha memória trouxe, quase que instantaneamente, uma cena da adolescência.

Minha mãe, minha tia e eu estávamos conversando na cozinha, quando chega minha irmã Margarida, toda sapeca, olhos brilhando e feliz! Sabe, mamãe, a Ana Luíza (a vizinha) é minha amiga! É mesmo, minha filha? É, mamãe. E posso saber por quê? Porque ela disse “oi” prá mim!

Até hoje rimos daquela alegria pura e tão afetiva, que a fazia sentir-se tão próxima a outra pessoa  por causa de um simples aceno.

Talvez por isso eu ainda fique chocada quando presencio certas cenas.

Sou de um tempo em que amizade se fazia com a demonstração de um carinho e aproximação, apenas com um sorriso.

Hoje, nem com educação e simpatia conseguimos conquistar a atenção e gentileza de quem está ali unicamente para bem atender às pessoas.

Foi essa lembrança que contei enquanto, no meio delas, de braços dados, atravessávamos a rua, como que querendo me desculpar pelo desrespeito do funcionário.

Já na outra calçada, ganhei um beijo de cada uma e uma delas disse-me, dando tapinhas no meu rosto, Não se preocupe, filhinha, as maçãs podres acabam no lixo.

Quando voltei para a outra calçada, elas me chamaram; virei-me e elas, sorrindo, disseram juntas “Oi!”

“Oi!” respondi e acenei feliz.

Está vendo, minha irmã, hoje ganhei duas amigas; a Dolores e a Vilma disseram “oi” prá mim!

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