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Posts Tagged ‘retorno’

Secret_Garden.

Diana queria tanto trazê-lo à sua vida ensolarada.

Principalmente quando via os olhos de Antonio turvados e sua face inescrutável, como sombra perdida na escuridão.

 

Diana sabia que lhe  doía a alma, mas mesmo sendo profunda essa cicatriz, mesmo sendo essa a profunda tristeza, Antonio não conseguia roubar a vontade que Diana sentia em vê-lo em pleno dia de muita luz.

Antonio sorriria um pouco, ainda que não fosse para ela, mas se a visse sorrir, Diana apostava que Antonio sentaria entre as flores no canteiro do jardim e cantaria uma de suas canções prediletas, aquela que só os pássaros cantam e que só os anjos entendem.

 

Ainda sorrindo, mesmo que silenciosa, Diana o pegaria pelas mãos e o levaria até a soleira da porta da casa onde ela deixara seu coração, daquela onde sempre está a pular corda e amarelinha, no compasso dos passos de Antonio.

 E lá Diana o entregaria definitivamente ao sol, talvez compreendendo  que o que já havia vivido bastasse para que, mesmo sozinha, sua vida continuasse sendo plenamente ensolarada pela lembrança de Antonio.

Afinal, não é assim que as imagens são guardadas dentro de cada um de nós, perguntou Diana a si mesma, enquanto virava a esquina, sem antes deixar de ver Antonio conversando com um esquilo de olhos brilhantes que lhe oferecia uma noz.

 

E Diana seguiu mais sozinha que nunca, levando em seu peito um vazio frio, calado, profundamente molhado de emoções tão fortes, de adeus.

Seguia quase que em transe, trôpega, com palavras costuradas na boca, porém com uma leveza assustadora no corpo e tudo porque, com seu gesto, estendeu a Antonio o pouco de paz que ainda havia dentro de seu coração.

A dor, a dor, ah! dor…

  

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Acorda com vozes sussurrantes.

Finge estar dormindo.

A cama a acolhe como um colo de mãe.

Sente-se aquecida, confortável, serena.

 

Conversam em outro idioma, essas criaturas de branco.

Falam sobre ela.

E ela sorri interiormente, já usou desse recurso para se expressar diante da não-comunicação, da impossibilidade de falar às claras.

E justo na língua que domina um pouco.

 

Querem observá-la mais.

Querem avaliá-la melhor.

Querem retê-la por mais dois dias.

 

O sussurro a entorpece.

As vozes se esvaem de sua mente, voam para longe, cada vez mais longe, até nada mais ouvir.

Mas, mesmo sonolenta, sabe que continua a sorrir.

Depois de três longos dias sem ver a luz do sol, sabe que está novamente no quarto.

Que pode ver a mesma paisagem.

Mentalmente visualiza no topo daquela rocha monstruosa, o esboço de uma coluna vertebral gigantesca, como se ela fosse a sustentação do mundo.

 

Essa montanha petrificada não possui o Cristo Redentor, mas ela sente o dedo divino apontando-lhe novo caminho.

De cuidados e muito carinho para com essa criança que ainda é.

 

 

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Retornar

  

 

Qualquer dia meu barco ficará à deriva.

Os remos soltos a balançarem com o movimento da água, como se fossem minhas mãos num último aceno.

Um aceno à natureza que sempre e tanto me encantou.

Um aceno aos habitantes das águas que por tantas vezes acompanharam meus sulcos, meu rastro, minhas marcas.

Um aceno a algumas sementes que plantei nas margens por onde passei e também aos frutos que colhi.

Um aceno ao perfume e ao silêncio da mata.

Um aceno às flores, aos pássaros e aos anjos que conheci.

Um aceno ao sol, à chuva, à lua e ao orvalho na relva, à neblina da manhã…

 

Haverá um momento em que meu barco chegará a alguma margem.

E ali permanecerá em silêncio, quieto, paciente, adormecido.

Por dias, anos ou séculos.

 Até que alguém o encontre e o faça, novamente, navegar pelas águas, pelas correntezas, ora frias, ora mornas, ora turbulentas e também em calmarias, atracando num novo cais.

Por segundos, por horas, para sempre.

 

Sei que nesse dia fará sol e, sem saber ao certo por que, sentirei novamente o perfume da vida, espargido pelo vento, no ar.

 

 

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Origem

 

 

 

Ainda não há tempo para sentir saudade.

Porém já sinto.

Deito no chão do terraço com os olhos grudados na negritude do céu.

Vejo minha casa.

Pequena e brilhante!

E sinto saudade.

A ponto de querer retornar.

Mas ainda é cedo, digo para mim;  se o fizer agora, entrarei em minha casa de mãos vazias, olhos ausentes, coração calado.

Ultimamente tenho sentido vontade de voltar para casa, mesmo consciente de minha condição.

Tenho sentido sede e muita  falta de ar (o dito progresso me sufoca em vários momentos).

 Se eu fosse agora, gostaria de acenar um sorriso para algumas pessoas, como naqueles filmes antigos que revi  junto à minha mãe, onde um lenço branco era estendido ao vento e, como o vento, sumia  leve, lentamente, como um sonho.

Sei que devo estar errada, não é tempo ainda de voltar mas…tenho sentido saudade.

A ponto de chorar.

 

 

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