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Posts Tagged ‘rio’

Filosofar

moça e água

 

Rio

porque esta que me olha

me sorri

e eu nem sei quem é

 

Estende-me as mãos

me oferece uma flor singela

e eu me aproximo do rio

para ver

quem é?

 

E por estar assim

rés ao espelho d’água

nele caio como um sopro

 

Rio

porque mergulho no rio

e o rio porque se envolve em mim

 

E rimos os dois

o rio porque corre em mim

eu porque corro com o rio

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Semeador

  

Encontrei-te

às margens de um rio

daquele onde guardas tua alma

 

Na quietude do instante

pressenti que conversavas

com o tempo

 

Depois, mais atenta

vi que choravas

como a correnteza

e o vento

 

Quis aproximar-me

sorrir-te

acalentar-te

com um carinho de luz

 

Pensei até em beijar-te

mas estanquei bruscamente

quando vi em tuas mãos

um punhal

 

Desesperei-me, corri

e só então vi

que plantavas mais uma árvore

aos pés de outra

 

No brilho de teus olhos

na emoção de tuas lágrimas

senti que ali permanecerias

até o primeiro fruto

 

 

 

 

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Adeus

 

Mas mesmo assim, encontrei-o escondido atrás das árvores.

Quando me viu através do espelho d’água, pelo mesmo espelho vi que se escondia mais e mais, na ilusão de que eu não o notasse.

Continuei lavando minhas mãos, olhos baixos, contrita, pensando que atitude tomar.

Passei levemente a mão na superfície das águas como uma libélula a matar sua sede, rio onde tantas e tantas vezes  juntos nadamos, desfazendo momentaneamente aquele espelho que se apresentara tão nítido.

Enxuguei-as lentamente naquele tecido amarelo e macio como pétalas de girassol, dedo por dedo, as duas mãos.

Quando não tinha mais como prolongar aquele instante, fui levantando os olhos da forma mais singela e delicada que eu poderia lhe dedicar   e, sem me virar, através do espelho já estático no tempo, lhe sorri.

Apesar de estar levemente trêmulo, levemente assustado, olhou-me fixamente, com decisão nos olhos e silêncios nos gestos.

Ficou paralisado, logo percebi sua infinita aflição.

Sentei-me no chão, a seus pés, ali mesmo na terra, no exato tempo em que ele, de súbito, também se sentou e nos abraçamos com profundo carinho, demoradamente, como se último fosse.

Depois tomou-me as mãos em suas mãos, olhando-me na alma como nunca fizera.

Inesperadamente, entre soluços contou-me com que frequência tem se escondido do tempo e das coisas perversas dos homens.

E temendo que eu também causasse algum mal maior pediu, quase que num sussurro inaudível,  para que eu me afastasse para sempre da sua vida.

Beijando-lhe as mãos, os olhos, a boca, aconchegando-o em meu peito para que sentisse o calor da vida a pulsar, pensei que poderia, sim, ter razão, que mais tarde eu o magoaria de alguma forma, em alguma atitude e, o pior, com alguma palavra afiada como cacos de vidro amanhecidos.

Mesmo assim persisti, insisti, tentando mostrar-lhe que, se necessário, poderia permanecer em silêncio ao seu lado, permanência invisível, compartilhando com ele apenas a minha alma por vezes embargada de emoção, quando seus olhos estivessem mergulhados no orvalho denso da madrugada.

Mostrei-lhe também que poderíamos, juntos, aprender a sorrir novamente, como sorriem as árvores quando a brisa as visita no final da tarde.

Ele permitiu então que eu permanecesse por mais algum tempo em sua vida.

Apenas por mais algum tempo.

Nada mais que um tempo.

 

 

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