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Posts Tagged ‘santo agostinho’

 

Estava a ler Santo Agostinho, filósofo polêmico, quando ouviu um Psiu!

Olhou de imediato para a porta, mas não viu sequer alguém.

Voltou à leitura, mas novamente outro Psiu!

Perscrutou a janela. Nada.

Levantou-se e encaminhou-se até a porta; talvez alguém a brincar de esconde com ela.

Nada.

Nem uma brisa sequer que pudesse indicar a presença de alguém.

 

Voltou à leitura e… novamente Psiu!

Agora pôde sentir da onde viera aquela sussurrante voz.

À medida que fechava o livro, sentia sua nuca arrepiar-se toda, arcando-se como uma gata assustada e com os pelos em pé.

 

E sua desconfiança cocretizou-se.

Santo Agostinho, o da capa do livro, todo paramentado de bispo, a ler outro livro, olhava-a com um tanto de irritação, Você ainda não aprendeu a segurar direito um livro? Mas que mal há no que estou fazendo… retrucou. Você está apertando meu nariz e, faltando-me o ar, não consigo ler esta encíclica e muito menos ficar quieto, imóvel, na capa deste livro! Perdoe-me, senhor bispo … (como devo chamá-lo?) não sabia estar molestando-o… Da outra vez, respondeu com um pouco mais de calma, preste mais atenção, está certo? (na Catedral chamavam-me de V. Emª mas gosto só do meu nome)

 

Agostinho, Agostinho… sabe que V. Emª colocou meu pai em sérios conflitos existenciais?

Em cada página de “Confissões” ele gemia baixinho, como se todos seus conceitos se despojassem de suas vestimentas seculares, para flutuarem diante de seus olhos revestidos de nova luz, de entendimentos profundos, de nova visão.

E quando a colocação era forte demais para ele, ia buscar entendimento junto a seu sogro, e assim ficavam filosofando sobre sua filosofia, Agostinho, até altas horas.

Mas tudo isso não te dá o direito, disse ele irritado novamente, de amassar-me o nariz e também minhas vestimentas!

 

Achou um pouco de exagero da parte dele e, por educação, ofereceu-se para passar sua túnica e seu nariz (que não estava machucado), pois afinal também era de papel.

Não é que Santo Agostinho aceitou?

Depois ela virou-se de costas para que ele vestisse seus paramentos ainda mornos pelo calor do ferro.

 

Enquanto estava aguardando, ela pensava que as pessoas do clero eram muito paparicadas, por isso manhosas, cheias de manias e grandezas; foi quando ele bondosamente indicou-lhe outra leitura “Descartes and Augustine” de Stephen Menn e, como em um passe de mágica, saltou para a capa do livro, continuando a leitura da encíclica, como se nada houvera.

Ela ficou olhando aquela imagem serena, de olhos baixos como a meditar; e assim ficou por um tempo que não sei, sentindo um torpor a invadi-la.

 

Quando despertou desse envolvimento, imediatamente rejeitou aquela situação inusitada que vinha à sua mente como se fora um sonho, nada mais.

Olhou atentamente para a capa do livro, como a verificar se tudo estava no seu devido lugar.

 

Diante da incredulidade dela que não soube mensurar o privilégio que tivera, Santo Agostinho, que também enfrentou sérios conflitos existenciais no que diz respeito ao mundano e ao divino, sentiu-se na obrigação de tomar uma atitude.

Certificando-se, pelo rabo do olho, que ela continuava a fitá-lo, desviou o olhar de seu livro e piscou para ela, como em cumplicidade.

 

E antes que ela atingisse o auge do delírio de sua febre de quase 39ºC, disse-lhe Cogito, ergo sum!

 

 

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