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Posts Tagged ‘silêncio’

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Às vezes ouço ruídos que outrora ouvia na casa da minha infância.

Ruídos sutis que por tantos anos ouvi, como se fizessem parte da estrutura da casa, dos móveis, das pessoas, das plantas e dos pássaros.

  

Às vezes  admiro-me de senti-los e, de imediato, ser levada por eles àquela casa que não existe mais.

Apenas dentro de mim.

Apenas como sensação, mas tão vívida que consigo, em segundos, estar no meio da sala, naquela tênue luz de fim de tarde a tocar-me suavemente a face.

O silêncio da noite chegando, os quadros me acompanhando com os olhos quando lentamente movia-me entre eles.

A sensação provocada pelo riso ao longe de minha mãe, pela voz de meu pai a cantar…

 

Como é possível sentir as mesmas sensações após tantos anos?

Cerro os olhos e sinto no ar, no silêncio… pequenos ruídos que vão aflorando na pele, com uma carícia, mais que uma lembrança, quase como um toque…

 

Fico pensando se isso ocorre também com outras pessoas de forma tão nítida ou sou eu que, fugindo constantemente do presente, refugio-me naquela que fui.

 

Acabei de ouvir um outro ruído e já não sei se estou aqui ou estou lá.

Já não sei qual de nós duas está a escrever e qual está a sentir.

 

 

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 movimento

 

  

Voar em círculos

circunscritos

pousar no centro

  

Olhar de dentro

reconhecer

em tempo

  

Buscar no silêncio

o espelho das estrelas

centelhas

  

Olhar de fora

sem sobressaltos

o vulto oculto

  

A sombra

O gesto

O desafio

  

No quarto círculo

circunscrito

repousar

 

 

 

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para Álvaro Alves de Faria

 

 

 

 

Quando te olhei pela primeira vez, sabia-te pastor.

 

Pedi permissão para me aproximar e com um aceno convidaste-me a ouvir histórias dos ventos que apascentam tuas ovelhas.

 

Ofereceste-me abrigo sob o luar, junto ao instante da noite e vislumbrei tua luz nas fagulhas e no fogo a crepitar e no límpido céu estelar.

 

Tuas ovelhas, mansas, serenas se aconchegaram a teus pés, fechando lentamente seus olhos molhados de amor.

 

Então tocavas doçura na tua flauta encantada para que, a sono profundo, tuas ovelhas continuassem a sonhar.

Com relvas tenras, com flores risonhas, com sombras de árvores maternas e água fresca a jorrar de tuas palavras.

 

Era quando sentias um pouco da imensa solidão dos poetas.

Mas ao vê-las quietas e ressonantes, sorrias para o tempo e para tuas mãos que sempre souberam decifrar tua alma diante da silenciosa eternidade.

 

Com o correr do tempo na pele, aprendi a balir com tuas ovelhas e hoje minha voz mistura-se a delas, suave, imperceptível, constante.

 

Quando te olhei, sabia-te pastor e humano.

Sabia-te encantador de ovelhas.

Como da primeira vez.

 

 

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Vermelho

 

A porta se abre

ruidosa

 

A moça entra

silenciosa

 

Masca chicletes

consulta a Internet

 

Ninguém no metrô se incomoda

com seus cabelos vermelhos

 

Apenas eu caminho sobressaltos

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Ultimamente tenho pensado muito na servidão humana.

Em 13 de maio pensei em relembrar, com algum texto, essa data.

Não consegui.

A idéia de que é apenas uma data, vem sendo reforçada, a cada dia, pelos fatos que vêm ocorrendo no tempo.

À época da escravidão nada era possível pensar, idealizar e muito menos realizar.

A palavra de ordem era Executar.

À época da libertação, parecia possível respirar, enfim, novas perspectivas, novos rumos.

Mas a palavra de ordem passou a ser Preconceito.

Na época atual, a da tecnologia de ponta, da informação globalizada, do poder aquisitivo mais estável (?), são necessárias leis para que estudantes negros possam cursar universidades; são necessárias leis para que subalternos sejam protegidos do assédio moral dos patrões; são necessárias leis para que as donas de casa não precisem se submeter ao jugo desvairado dos maridos violentos e viciados; são necessárias leis penais para as mães que abandonam seus filhos recém nascidos em latas de lixo; são necessárias leis para que pessoas possam ser respeitadas por suas opções sexuais e crenças religiosas.

Não sei qual palavra de ordem utilizar para estes tempos.

Se o Brasil foi colonizado em 1.500 trazendo escravos em sua bagagem, hoje, 2012, portanto 512 anos após, em que segmento é possível encaixar a palavra Evolução.

Nossos grilhões, hoje, são a inveja, o egoísmo, o orgulho, o desrespeito, a calúnia, a prepotência que não causam mais feridas no corpo, mas na alma.

Somos cegos perambulando na escuridão da nossa pequenez, marcando passo como soldados de chumbo que fazem muito barulho ao marcharem mas que não saem do lugar, com um monstruoso comandante em exercício que está sempre a ordenar, Ordinário! recuar, recuar, recuar…

Por isso me calei nessa data, com um sentimento profundo de pena de nós mesmos.

 

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Aquele homem triste e cabisbaixo estava sempre caminhando na contramão.

Quando a maioria das pessoas apagava a luz para dormir, ele levantava-se.

Antes de caminhar, sentava-se em um banco do jardim e sempre encontrava um tempo para admirar a lua que já se desenhava no manto noturno.

Quando não surgia, entregava-se à carícia das estrelas.

 

Quando todos se levantavam, esse homem triste fechava sua janela e seus olhos e dormia quase que de imediato.

De certa forma esse estar só provocava-lhe cálido conforto.

 

Embora sentisse que o pensamento que o pegava de sobressalto era incoerente com a disciplina que havia aprendido com seus pais, estar ausente de tantas trivialidades, banalidades mesmo, trazia-lhe certo fortalecimento interior, provando-lhe a vida que o curso do tempo não dependia de promessas monótonas que, de tão repetitivas, tornavam-se insignificantes.

 

Talvez, por isso, sentisse tanto desânimo e tristeza na maioria das pessoas.

Também sentia uma vergonha acentuada na sombra de seus olhos, por ser obrigado a situações que não escolhera.

Talvez, por isso, quisesse ficar em silêncio consigo mesmo.

 

Quantos não sentiam o frescor da noite acariciando seus pensamentos, por mais doloridos que fossem…

Quantos conseguiam perceber que ser amado por tantos às vezes torna-se tão pesado quanto arrastar pedras.

Quantos não sentiam a si mesmos…

Quantos de tantos, indagava-se.

 

Quando esse homem triste dormia, o que perdia de mais importante que a presença da natureza em sua vida? Nada, mesmo que os outros estivessem trabalhando, produzindo.

Isso ele também fazia no decorrer da noite, além de encontrar-se com as surpresas da madrugada no seu caminhar.

 

Estar na contramão traz sempre descobertas, desafios, reflexões, palavras que muitos não são capazes de dizer; é conseguir enxergar e não apenas ver.

Estar na contramão é muito bom; só assim posso ser íntegro comigo mesmo, pensava ele, aconchegando-se às cobertas, antes de cerrar as janelas e os olhos.

E dormir sonos sem sonhos.

Apenas dormir.

 

Só não entendia o porquê de, no meio dessa contagiante satisfação interior, ainda se sentir triste…

 

 

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Gostaria de deixar alguma mensagem sobre a Páscoa antes de viajar.

Refleti durante mais este dia que passou pelo tempo e me senti estranha porque, diante de tantas barbáries que vem ocorrendo e às quais ficamos expostos e completamente inseguros, não sei se tenho alguma palavra boa para deixar aqui.

Aliás, eu as tenho sim, mas acho que não fazem mais sentido para a realidade que se vive hoje.

Não posso apenas escrever lindas frases, repletas de esperanças, somente por causa da data.

Cansei de brincar de Polyana.

Reparei que dia a dia estou tornando-me cada vez mais calada.

O que dizer?

Para quem dizer?

Por que dizer?

Só sei falar de amor, mas o que me invade são longas noites, noites escuras, intermináveis, eternas e já não sei onde guardei as velas que se acendem somente dentro de mim, para poder iluminar estes momentos de tantas incertezas, tantas inversões de valores.

Só sei falar de amor, da natureza, do silêncio das bibliotecas, da música cálida ao piano, do beijo roubado, do mel de um certo olhar, do cair da chuva como lágrimas…

E há pessoas que riem, não usam palavras explícitas, mas me olham como se eu fosse um objeto de antiquário.

Confesso que esse pensamento até me causa orgulho, por não ser igual a essa falsa atualidade, essa fútil modernidade.

Mas, o que dizer?

Se falar de amor já é motivo suficiente para risos, imagine comentar sobre a Páscoa, sobre Jesus– meu Avatar– em renovação da vida…

A verdade é que, em meio a toda essa turbulência que estamos vivendo em nosso país e no planeta, onde leis dormem profundamente em papéis esquecidos no fundo de gavetas, onde estupro de menor já não é mais crime, onde se trafica drogas e mulheres, onde menores andam armados e maiores engomados e patenteados fingem não ver, vivemos um vale tudo, uma roleta russa…

Alguém há de pensar que estes não são pensamentos adequados para a semana de Páscoa.

E por que esses mesmos pensamentos de Páscoa, Natal, final de ano, aniversários etc. não se estendem para os demais dias do ano?

Afinal, comemoramos o quê? datas ou fatos?

Precisaríamos vivenciar profundamente o sentido da Páscoa, pelo próprio significado da palavra; talvez assim conseguíssemos vislumbrar o recomeço de nossas vidas, a renovação dos sentimentos, palavras e atos.

Mas como sei falar apenas de amor, não consigo pensar em alguma mensagem; a verdade anda requintadamente vestida de crueldade.

Calo-me e recolho-me na minha insignificância, esperando passar alguns dias calmos junto e diante da natureza, em comunhão com minha paz interior.


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Sempre que podia, Lia gostava de observá-los.

Não por mera curiosidade, mas com profunda admiração, posto que toda e a cada vez sempre se mostravam como se primeiro encontro fosse.

 

Trocavam algumas palavras, breves sorrisos, respiração  suspensa, olhares intensos, silêncios intermináveis.

Seus espíritos irrequietos, ansiosos, não se espelhavam nunca em seus gestos.

 

Lia sentia em ambos um comedimento tenso, como se algum descuido pudesse atirá-los um nos braços do outro, nas palavras a borbulharem em suas bocas, ou no calor de seus corpos sentido naquele simples toque de mãos, vindo a desmoronar a tentativa explícita de submissão.

Submissão aos fatos incontornáveis que se apresentavam, mas não o suficiente para sufocar o que sentiam.

 

Lia sentia que as pessoas ao redor, quase sempre as mesmas,  nada viam porque não compreendiam mesmo,  não sabiam ler os sinais.

 

Mas Lia sabia que eles se amavam, cada vez mais.

Não se diziam, mas se amavam.

Por isso admirava profundamente esse encontro silencioso.

Em silêncio.

 

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Laços

 

 

 

Silêncio

Soluço

Lenço lento nos olhos

Lágrimas, rios

Mar revolto

 

Há laços que não podem ser

Desfeitos

 

 

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Não há muito que dizer.

Tenho receio de faltar-me palavras.

Sobrar-me o pranto.

Mas quero agradecer a você, querido Raul, a inspiração que teve daquele momento de perdas irreparáveis, um dos mais dolorosos de nossas vidas.

 

Como disse a você, morro a cada palavra.

Mas meu irmão, nosso querido João, e nosso querido Eduardo, hão de nos querer sempre vivos, pulsantes, mesmo que varados de saudades.

 

Infelizmente perdi o contato com a Heloísa, mas guardo na memória e nos sentimentos tudo o que de tão terno e importante fez.

 

Com sua permissão, deixo aqui registrado seu poema, sua sensibilidade e magia que foram tecidas cuidadosamente, como traços de uma planta de arquitetura que você executa com tanta propriedade, eternizando aquele momento de profundo amor e de dilacerante e silencioso aprendizado.

 

 

Las Quatro Mujeres

 

 Houve um tempo, sem tempo para quatro mulheres

minutos seculares de lua trocando o sol

rapidamente, sem diferença de tom

 

Suas vidas não existiram nessas noites claras

zelavam decididas, plantadas todo tempo

com as mãos no tempo que ainda restava

aos dois meninos alegres de overdose

 

Nem o menor ruído passou batido

sussurro algum passou despercebido

entre sopas, lençóis, afagos e poesias,

misteriosas, na mágica alquimia,

faziam dos tufões, ventos macios,

de pesadelos, sonhos de ninar

 

Ai dos maus fluidos que ousassem perturbar,

mesmo distraídos, o sono dos meninos!

mais que depressa elas filtravam sonhos,

Elis, Caetano, Bach e violinos

 

Implacáveis, insurgem contra o tempo,

atrasando os ponteiros insistentes,

num tic tac tenso e incessante,

até parar o tempo por instante

 

Zelavam os lentos pingos transparentes,

que gota a gota desciam correndo,

avidamente, para sumir nos braços,

na rápida esperança de criar mais dias.

 

Se entregaram as quatro sem piscar

ao mais bruto dar e sem nuances

e eles beberam tanto dessa fonte

que impossível foi dar o último trago

 

Um dia os dois travessos decidiram ir

para um lugar que só eles conheciam

e o tempo todo guardaram em segredo

 

Buenos Aires, França ou Maresias?

onde seria esse lugar distante?

de malas prontas, passagens marcadas,

piscando um olho, foram de mansinho

 

Mas indecisos, param de repente,

descem a bagagem e pensam num instante:

como sair do ninho dessas deusas

quatro mutantes, lindas, todas suas

e que ainda trocaram suas vidas pelas deles?

 

Debruçadas no leito a doze mãos,

tocaram um barulhento tango, louco de ternura

Tu me Acostumbraste a afagos e docinhos

e Bel, Marga, Rosa e Helô eles beijaram

 

Embriagados em delírios mil e gargalhadas,

os seis deitaram roucos e exaustos

mas só os dois de fato adormeceram

e delicadamente foram mergulhando

num mar de travesseiros brancos e cambraias

 

Superlotados de mãos, enternecidos

do privilégio de ir em mãos macias

devagarinho, nem sequer deixaram

o som das pálpebras quebrar a luz do dia

 

E sorrindo os dois meninos acenaram

com as mãos brincando leves e macias

mas de verdade mesmo, não se foram,

trapaceando toda despedida

 

Como é possível ir de vez embora

se o tempo todo tinham em suas mãos

quatro mulheres que com seus encantos

tinham o dom de amanhecer a noite escura?

 

                                             Raul Isidoro Pereira

                      Março de 1992

 

 

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