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Posts Tagged ‘sonho’

Vaga Lembrança

escombros 2

 

 

Quando eu te amava

era mais feliz, mais risonha, mais leve

conversava com os pássaros e as hortênsias

deixava o vento brincar com meus cabelos e meus dedos

sorriam uns para os outros

quando folheavam algum livro colorido de criança

para adultos

.

Quando eu te amava

acordava no meio da noite

escancarava a janela e cantava com a lua

bebia as gotas de orvalho que brincavam

nas pétalas das flores

e nas ramagens

.

Quando eu te amava

andava descalça entre as pedras do jardim

e deixava que a grama fizesse carinhos molhados

e frescos nos meus pés

.

Quando eu te amava

saía no meio da tarde com minha varinha mágica

(escondida dentro da manga)

e sem que ninguém percebesse

dava vida a tudo que encontrasse e que estivesse seco

sem vida

.

Quando eu te amava

meus cabelos eram mais brilhantes mais sedosos mais longos

meu sorriso era farto

trazia entre os lábios um poema recitado com ardor

deste poeta que até hoje dorme na cabeceira

de minha cama

.

Quando eu te amava

andava assim como quem sempre está indo

encontrar alguém

na cadência de meus pés mostrava

a ansiedade daqueles que descobrem

a vontade de caminhar ainda mais

.

Quando eu te amava

você me chamava de Minha Deusa

beijava-me as mãos os olhos a boca

tirando-me os pés do chão

e os sentidos …

.

Naquele dia coberto por uma densa bruma

sem sol, sem brilho

sem palavras de ternura

partiste

.

Com tua espada, teu escudo

teu elmo abaixado para que não pudesse vislumbrar

meus olhos molhados

minhas mãos trêmulas

meus pés sem passos, colados ao nada

.

Daqui da onde estou

olhando os escombros de um castelo

que um dia supus ser de pedras sólidas e ferro

resta-me a vaga lembrança

do quanto te amei

 

 

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Ao Entardecer

rosa e piano

 

 

No dedilhar das teclas do piano

te encontro criança

te encontro mulher

 

Trazes junto com os sons

vozes ausentes

mas nunca esquecidas

 

Trazes momentos que mostram,

como espelhos,

a infância vivida a cada instante

e que hoje chama-se lembrança

 

Mostras a mulher que descobriu a si mesma

que se entregou a cada sentido

a cada carinho

à descoberta de que a vida não é

apenas uma rosa, como tu,

mas que os espinhos existem

para que a dor não chegue ainda mais perto

 

Trazes passado e presente de mãos dadas

como crianças

a brincarem de roda em uma tarde de sol

na calçada de um lugar

que ainda mora dentro de ti

 

No dedilhar das teclas

a mágica de ser

e sonhar

 para minha irmã Rosa

 

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pequeno príncipe

 

Um filme em três dimensões.

Me encantei entre as estrelas, entre as delicadezas com as quais sonhei toda a minha vida e, das quais, algumas consegui que não adormecessem em mim.

Verei, pelo menos mais uma vez, para apreciar o desenho em si, a técnica de movimentos e cores, a leveza das vestes e, também mais uma vez, a profundidade dos sentimentos.

Hoje, bem… hoje entreguei-me à magia.

E vi quantos sentimentos profundos e simples ainda habitam minha alma; sentimentos que para tantas pessoas já caíram em desuso ou descrédito, no abismo imenso que se abriu entre os valores que ainda servem a alguns, de pilares de sustentação.

– “O que é cativar? pergunta o principezinho. É uma coisa muito esquecida, disse a raposa – significa criar laços”.

Hoje não quero falar de gente grande; quero falar de crianças como eu que, embora com mais idade , ainda sabem falar de ternura, de sonho, de encantamento, de brilho nos olhos quando se recebe uma doce palavra ou um simples mas poderoso carinho, um beijo gostoso ou um abraço mais demorado!

Meu coração saiu feliz e leve do cinema, confirmando-me que vale a pena lutar pelo que tenho de mais verdadeiro em mim, embora muitas vezes minhas atitudes e palavras gerem rizinhos disfarçados e zombeteiros.

Mas hoje nada disso me importa.

No caminho de volta para casa, lembrei-me de meu pai.

Há 39 anos comprei esse livro de presente para ele.

Quando o desembrulhou e o folheou vendo os desenhos infantis, olhou-me surpreso e espantado.

Mas, do alto de sua discrição e ponderação, disse-me brandamente, Minha filha, você acha que este livro é leitura para seu pai?

Como eu já esperava uma reação parecida, apenas lhe respondi, Leia, papai, depois comentaremos se é apropriado ou não.

E voltei para São Paulo, com a certeza de que ele leria o livro com cuidado, embalado em sua rede que costumava armar debaixo daquele caramanchão, naquele canto do quintal maravilhoso de nossa casa. (Papai demorou dois meses e meio para ler (e entender) O Pequeno Príncipe. Sei disso porque hoje eu o tenho comigo, onde, na última página, ele colocou a data em que terminou sua leitura.)

Quando lá retornei e quando já havíamos conversado sobre trivialidades, perguntei-lhe sobre o livro (senti que ele queria ter tocado no assunto bem antes, mas talvez não soubesse como abordá-lo).

Seus olhos brilharam imediatamente e então entendi que o meu intento havia se realizado; atingi em cheio o coração de poeta de meu pai, daquele pai que poderia ter sido rígido, austero, como todos os homens de sua época assim  criados, mas que tinha coração de mel, como o meu.

“Só se vê com o coração – disse a raposa ao principezinho.”

Olho neste instante para o céu.

Como faço todas as noites de minha vida, não importando como o tempo se apresente.

Vejo as estrelas que são meus amores, mas vejo também meus amores que se tornaram estrelas.

E meu coração sussurra baixinho para o sorriso que elas provocam em meu rosto… “o essencial é invisível!”

E a história desta pequenina e doce criatura se encerra com a conclusão que ele tirou, depois de suas andanças e descobertas, “E nenhuma pessoa grande jamais compreenderá que isso tinha tanta importância.”

Um filme em três dimensões.

Como se eu precisasse disso para sonhar!

 

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cão e gato

Aprendemos a falar de amor para quê?

Somente para enaltecer a beleza da Natureza, o amor incondicional dos animais ou do ímã que existe entre os seres terrestres e espaciais?

 

Cabe a nós que ainda sonhamos, a nós que trazemos no peito um coração incansável que canta, dança, pula e brinca como criança; cabe a nós amenizar a dor e o desamor que assola não só o nosso ou outros povos, mas toda a humanidade.

 

É um fardo pesado sim, muitos não aguentam, desistem à margem da tentativa!

Mas é um fardo que nos faz crescer, amadurecer, porque nos ensina lições preciosas, inesquecíveis.

 

Somente no final do ano a maioria dos humanos deixa aflorar seu potencial (os animais irracionais fazem isso durante todos os dias de suas vidas…. e nós é que somos inteligentes); todos sorriem, se beijam e se abraçam, se presenteiam e se desejam uma felicidade que, na verdade, não conhecem.

Fitas coloridas, árvores enfeitadas, mensagens radiantes… amorzinho, amiguinho, irmãzinha e outras “inhas” para demonstrar a gratidão acumulada durante todo um ano e que agora explode como fogos de artifício.

 

Cabe a nós que ainda sonhamos, a tentativa de “virar” a maioria das pessoas no avesso e assim, ajudá-las a externar suas luzes e descobrirem através de atos, e tão somente de atos, que não há necessidade desse represamento de emoções.

Cabe a nós mostrar que podemos tudo e sem brincar de Polyana, com o pé sempre no chão e o coração nas estrelas.

 

Afinal, quantas vezes já sorrimos quando, por dentro, chorávamos?

Quantas vezes edificamos no momento exato em que, por algum motivo, estávamos sendo destruídos?

Quantas vezes caminhamos para incentivar, quando na verdade pensávamos em parar, ficar, se acomodar?

 

Somos todos iguais, passamos pelas mesmas alegrias, dores e necessidades; aquele que diz sofrer mais é porque já atingiu a fase da cegueira e só pensa em si ou faz de si uma vítima.

A única diferença é que uns conseguem sonhar, outros não.

Os que sonham nunca tiram os pés da atualidade (verdade) e nem os olhos do céu; e assim se fortalecem e entendem seu papel na história do Universo.

Faça de você uma ideia maior.

 

Por esta razão desejo, sim, um Natal de Luz e muita Paz, mas não apenas uma passagem de ano alegre, com músicas altas e bons presságios; não quero desejar apenas palavras que possam  se perder no decorrer do tempo.

Desejo sim, que os anos do resto de nossas vidas passem por nossas emoções profundas e ações marcantes.

 

Para isso aprendemos a falar de amor.

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Sou uma pessoa privilegiada, em todos os sentidos.

Criada no interior, sei o que é brincar em um vasto quintal repleto de frutas, plantas e flores, com muito sol e também com chuva (que era quando afloravam as mais deliciosas traquinagens).

Criada convivendo com meus três professores prediletos (mamãe, papai e vovô) que nos auxiliavam quando das dúvidas ou curiosidades.

Quantas coleções ilustradas tivemos! Até hoje me lembro d’O Mundo da Criança e suas histórias fantásticas, Reinações de Narizinho, O Mundo Animal e, mais tarde, a coleção feita por meu irmão João, A História da Arte.

Mais tarde partimos para a leitura dos filósofos, na biblioteca de meu avô e, também buscamos o divino na biblioteca de meu pai, onde nos entretínhamos com a vida dos santos (sem quase nada entender).

Às vezes pedíamos para meu pai que nos contasse histórias “de medo” e depois minha mãe se zangava porque demorávamos para dormir.

Aprendi Francês com 11 anos e Inglês com 13, no colégio que estudei (hoje as crianças mal escrevem em Português…)

Nunca esquecerei da aula com a mestra Maria Lúcia Barbim, em que aprendi a redigir primeiro um bilhete, depois um comunicado seguido de uma carta e, por fim, uma redação (obrigada, mestra!)

 

Cresci ouvindo meu avô ao violino que me parecia mágico, minha mãe em um piano que transbordava amor e meu pai ao violão, em eterna saudade e melancolia (optei por aprender violão).

Cresci vendo meu avô a cantar com as netas e minha mãe nos braços de meu pai, a rodopiar pela sala.

 

Cresci feliz, brincando (e às vezes brigando) com mais quatro irmãos, onde o mais velho mandava no mais novo e, o mais novo era, como se diz, paparicado por todos (até hoje alguns de nós continuam assim, brincando de mandar no outro, sem se dar conta do tempo que passou…)

Divergências até hoje existem (somos normais), mas também o que nos unia àquela época, até hoje perdura: amor.

 

Aprendi valores ímpares, pilares que sustentam minha vida, pelas palavras e exemplos que observei em meus familiares; só para citar alguns, respeito, honestidade, perseverança, amizade, bondade (e, particularmente, aprendi com todos a sonhar!)

 

Cresci em contato com animais (em casa, na casa de amigos, ou no sítio do avô (Lumina) de meus primos) e fico sentindo um vazio e tristeza pelas crianças que só os conhecem através de bonequinhos, figuras de revistas ou pela tv

 

Cresci em um tempo onde lama era uma mistura de água e muita terra, onde somente porcos (os animais) chafurdavam o dia inteiro, não se incomodando com nada ao redor.

 

Cresci em um tempo onde nossa saúde era cuidada com muito carinho; por isso, a abundância (em qualidade) em frutos, alimentos, higiene, água.

 

Cresci em um tempo que se ria por bobagens, um riso frouxo, puro, cristalino, porque se gostava de rir simplesmente.

Ríamos à toa e tanto que uma de nós chegava até a fazer xixi na calcinha! (conto a intimidade, mas não conto quem era!)

 

Aprendi a gostar de bons filmes (éramos cinéfilos, todos!) o que me é permitido até hoje, digamos, saboreá-los, de tanto prazer que ainda me trazem.

 

Cresci em um tempo onde passávamos com muito medo diante da cadeia da cidade, com aqueles homens pendurados naquelas janelinhas gradeadas olhando para o nada (hoje andam entre nós).

 

Aprendi a cultivar amigos que presentes estão em minha vida da mesma forma como estou aberta para eles, a qualquer momento que de mim precisem; são poucos (conto nos dedos de uma só mão), mas são pessoas das quais me orgulho em ser amiga.

 

Aprendi (mas não muito) a ter paciência com os prepotentes, mas aprendi também a “levantar o nariz” para os imprudentes, invasivos e ingratos (afinal tenho muitos defeitos, você nem imagina!)

 

Aprendi a amar, a chorar, a cantar, a escrever, a observar, a buscar (sem às vezes encontrar)

 

Cresci, aprendi, descobri, perdi, ganhei e aqui estou.

Com medo de desaprender tudo o que até agora entendi como sendo o melhor.

 

Foi assim que acordei nesta manhã.

Lembrando-me de todos esses momentos e também do sonho que tive (e que depois entendi o por quê).

Me vi toda paramentada em uma cerimônia oriental (japonesa, talvez) que transcorria com muito respeito, disciplina, cuidado, responsabilidade, concentração, harmonia, alegria.

Passado um tempo entendi que, unica e exclusivamente por culpa de tudo o que tive (é verdade!) hoje sinto-me um peixe fora d’água, que pulou para a margem e morre lentamente de sede, sede de tudo o que tive um dia.

Sim, hoje, quando o povo resolveu continuar dormindo em berço esplêndido.

 

Sou uma pessoa privilegiada, para quê mesmo?!?

 

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.

ondas trazem

lembranças

que se tornam espumas

conchas

risos ao longe

barco à deriva

 

 

ondas trazem

aos pés descalços

toque suave, morno

vento sussurrante

estrelas do mar

 

 

ondas trazem

beijo não roubado

carícia esquecida

silêncio absoluto

por do sol

 

 

ondas trazem

murmúrios distantes

constantes

ausentes

presentes

como um alento

 

 

ondas trazem

o que nunca chegará

 

 

 

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pablo neruda

.

Perscruto o tempo e parece-me ouvir tua voz que me faz voar entre poemas, buscando teus sentimentos, verso a verso, nos caminhos e descaminhos, na ausência, na saudade, na busca, na solidão.

E triste fico ao sentir a falta de poesia nesta atualidade, onde ela é trocada por nada, nada mesmo, por pompas exacerbadas, atos ilícitos, brutalidades que tornam os seres insensíveis, roubando o sonho de quem tem o direito e a precisão de sonhar.

 

Para ti, Mestre Neruda, nada disto é novidade se relembrarmos de tudo porque passaste, até que, de decepção e dor, te isolaste das coisas mundanas para poder mais um pouco sobreviver, para viver, quem sabe, um último sonho.

Mas nem isso te foi permitido, teus dias de sonhos últimos e de contemplação que ainda buscavas foram ceifados.

De tristeza morreste, é verdade, mas como se não bastasse fizeram-te morrer inúmeras vezes e, na derradeira, pelas mãos que manchadas para sempre estarão das palavras que não tiveram tempo de serem ditas, dos poemas que voaram contigo pelo caminho do invisível.

.

Hoje, data em que te obrigaram a tomar outros rumos, permito que minha alma volite entre tuas palavras, tuas emoções e esperanças; a primavera que não teve a seu favor o tempo de existir.

 

Quando olho o mar, procuro entre o movimento das ondas o teu silencioso e distante olhar.

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 18

 Aqui te amo

Nos escuros pinheiros se desenlaça o vento

A lua fosforece nas águas errantes

Andam dias iguais e perseguir-me.

Às vezes amanheço e minha alma está úmida

Soa, ressoa o mar distante

Isto é um porto

Aqui te amo.

.

Aqui eu te amo e em vão te oculta o horizonte

Estou a amar-te ainda entre estas frias coisas

Às vezes vão meus beijos nesses pesados barcos

Que correm pelo mar rumo onde não chegam.

Olham-me com teus olhos as estrelas maiores

E ainda porque te amo, os pinheiros, no vento,

querem cantar teu nome, com suas folhas de cobre.

 

 (Vinte Poemas de Amor e Uma Canção Desesperada)

 

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