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Posts Tagged ‘travessuras’

 

Nesta época de Natal, trazendo um pouco, a cada dia, as imagens dos Reis Magos do meu presépio para mais perto da imagem simbólica do Cristo menino, tive um daqueles devaneios que sempre surgem nesta ocasião.

Ocasião em que a humanidade mostra que realmente é movida por um amor interior que consegue aflorar universalmente, mas que depois é recolhido como se fosse um erro demonstrá-lo em todos os outros dias do ano, essa riqueza simples, pura, verdadeira.

Mas essa é uma outra história que, em outro momento, poderemos conversar e refletir… mas agora quero contar dos meus devaneios, talvez com uma necessidade premente de acariciar meu próprio coração de criança.

Me veio à mente aquelas imagens… era um tempo muito, muito feliz!

Um tempo que habita minha alma, meu viver, que me faz rir e chorar e morrer mais um pouquinho a cada lembrança…

Embora meu avô sempre dissesse para lermos um livro se nada tivéssemos para fazer, aconteciam momentos de vontade de nada fazer mesmo, de preguicinha ou de criatividade infantil, como a de telefonar para todos os conhecidos da família, para desejar boas festas.

– Vou ligar para Dona Anita Ramos, minha Mestra! – dizia eu, toda pirilampa e feliz.

– E eu vou ligar para o Armando Delmanto, meu amigo jornalista e escritor! – dizia minha irmã Rosa, toda orgulhosa!

– Ligue logo porque quero falar com Dona Maria – dizia minha irmã Margarida, apaixonada pelo Sérgio, neto dela.

Era uma disputa acirrada para usar o telefone; saía até uns empurrõezinhos.

Aí chegava a minha vez, novamente.

– Vou ligar para “Seu” Lacerda, nosso farmacêutico, pai de minha querida amiga Olga; um senhor muito espirituoso, alegre, generoso.

Margarida pulava a ordem da fila e ligava para a Ana Luíza Dorini.

E veio-me à mente aquela cena dela entrando na cozinha, toda feliz, dizendo à nossa mãe:

– Mamãe, mamãe! A Ana Luíza é minha amiga!

– Que bom, filha! Você conversou com ela?

– Não, mas ela disse “Oi” para mim! (rimos disso até hoje!)

E, a partir desse dia, Ana Luíza foi elevada à categoria de amiga.

Desde essa época, meninas que éramos, o conceito de amiga já era muito forte e valioso para nós.

– Agora sou eu! – e Rosa brigava comigo porque Margarida pulara sua vez e sobrara para mim; mas eu batia o pé:

– Não vem que não tem! Você é atrás de mim e eu depois da Margarida!

Na verdade eu já nem estava entendendo nada.

E para desviar o assunto, perguntei:

– Quem vai ligar para a Dona Assunta do empório?

Silêncio.

Troca de olhares.

Nenhum mosquitinho passou voando por ali naquele instante.

Explico: Da. Assunta era uma senhora italiana ou judia, não sei bem, muito alta e grande, de feições severas, mas que tinha um coração imenso, coração de mãe mesmo.

Porém, tínhamos medo dela, pois era muito severa com seu marido e funcionários.

Bom, para sair daquele impacto que acabei causando com a pergunta, logo me coloquei:

– Eu não posso ligar porque ela vai reconhecer minha voz!

É que eu vivia ligando lá e perguntando se tinha sardinha em lata, ao que ela respondia prontamente que “Sim, temos!” e eu, imediatamente pedia: – Solta as coitadinhas, estão tão espremidinhas, sufocadas! E desligava rapidinho.

– Eu ligo! – dizia Margarida e, ao invés de desejar boas festas a Dona Assunta, perguntava se aranha subia escada de tamancos! (literalmente chorávamos, de tanto rir)

Refeitas, Margarida ligava (furou fila outra vez!) para a Olga Royal, perguntando de sua coleção de bonecas, da loja de tecidos, do irmão e, claro, desejando um feliz Natal!

– Quem vai ligar para o Dr. Monteiro?

– O papai liga – Rosa respondia.

Às vezes achava que ele cuidava de nossos dentes através de hipnose, com aqueles olhos verdes, olhar de paisagem, paisagem infinita… e tome algodão no dente!

– Eu ligo para o Dr. Canto! Ele é legal e se você não deixar eu ligar – dizia eu para a Margarida –  vou contar para ele que você fingia que tossia só para arrancar páginas das revistas na sala de espera!

Falava só para chantageá-la, porque eu também fazia isso.

– Liga para a mãe do Bosco, Isabel! – dizia Margarida

Embora eu quisesse muito, pela possibilidade dele atender ao telefone e eu sentir meu coração disparar, tinha receio de fazê-lo porque ri na frente dela quando alguém me contou que, quando ela conheceu o marido, ele se apresentou dizendo “Muito prazer, meu nome é Benedito”, ao que ela respondeu “Prazer, e o meu é Benedita” e me parece que, em um primeiro momento, “Seu” Benedito ficou aborrecido porque entendeu que ela estava brincando com ele.

– O papai liga – falei – ele é amigo do pai, os dois são da Ordem Terceira de Francisco de Assis.

Às vezes acompanhava-nos nessas peripécias e em outras, nossa amiga Dilza Freitas, moleca como nós; tinha carinha de meiguinha, como eu, mas adorava uma “arte”.

A irmã dela, Damaris, era mais séria, já namorava e, por isso, participava raramente das nossas farras.

Se não era a Dilza, era a Marina Câmara, que morava praticamente em frente de casa e adorava uma banguncinha também.

– Corre aqui, corre aqui! – chamava a Rosa – a Ana João está passando!

Ana João era uma moça “fora da casinha”, uma andarilha, magrela que só ela, risonha, divertida. (às vezes ficava muito brava!)

Embora sempre de saia, blusinha curta, meias soquete e alpargatas nos pés, tinha um ar simploriamente masculino.

E nós três, da sacada de casa, gritávamos:

– Feliz ano novo, Ana João; feliz ano novo!!!

E ela sorria, sem a mínima noção do que falávamos; pegava nas pontas da saia parecendo que ia dançar…

– Liga para o Lalau, Rosa!- e ela ria e dizia, Eu não!

Lalau era nosso vizinho, um rapaz loiro, magro, o caçula de uma família barulhenta e alegre; a família Geraldino.

Lalau tinha um pequeno defeito em um dos pés ou pernas e mancava um pouco ao caminhar.

Rosa, espirituosa que sempre foi, fez um musiquinha para ele e logo nos ensinou e, tudo que é bobagem, criança aprende rapidinho, não é?

– Lá vem o Lalau! Lá vem o Lalau! – chamava a Rosa.

E corríamos novamente para a sacada, esperávamos o Lalau passar para depois cantar:

“ Ô Lalau, bambolê,

   Requebra as cadeiras

   Pra gente ver!”

E ele olhava para trás e derramava em nossos olhos aquele sorriso largo, aquele sorriso loiro e feliz!

Parece-me, hoje, que o que fazíamos talvez fosse inadequado; talvez o problema dele fosse mais sério, mais grave do que imaginávamos… mas ele ficava tão feliz!

Lembro-me que, mais tarde, meu pai comentava com minha mãe o quanto a conta do telefone havia aumentado, ao que minha mãe dizia, Não se aborreça, João, não se aborreça… nessa época utilizamos mais o telefone para falar com nossos parentes e amigos.

Nós abaixávamos a cabeça e ríamos escondido para nosso pai não ver.

Todos esses momentos vieram á tona, neste pequeno tempo enquanto os Reis Magos caminhavam para a tão próxima visitação.

Olhei no relógio que me mostrava a meia noite do primeiro dia do ano e tive uma última lembrança.

A de minha mãe teatralizando uns versinhos que aprendeu com sua mãe, ainda menina, fazendo-nos tremer de medo e rindo de nossa reação, por certo com olhos arregalados e fisionomia lívida.

Então dizia gesticulando e com voz lúgubre:

“ Meia noiteeee…

  Cabelos para o arrrr…

Pega um enorme facão…

E passa manteiga no pão!!!”

Mandei, no ato, esta lembrança para minha irmã Rosa, para que sentíssemos, juntas, a emoção daquele momento.

Dançaram à minha frente as imagens de Dona Iolanda, seu marido Leonel e os filhos com os quais barganhávamos frutas (amora x jabuticaba) através do muro; os queridos Nélio, Celso, Telita e Ginho.

As imagens de minhas amigas Ilza Nicoletti, Edna Bassoli, Cleuza Crespan, Cristina Cariola, Cristina Parret, Sonia Cabral, Lúcia Alves, Heloisa Pardini e Heloisa Moreira, Rosa Popolo (nossa! que saudades.); Magnólia, Dona Heda, Dona Maria Caricati, Eunice.

 

Fui me deitar com o sentimento de felicidade na pele, no pensamento, nos lábios, no coração.

E quando acordei, assistindo a uma palestra de Ariano Suassuna, o ouvi dizendo que a data de 6 de janeiro tem um significado muito importante em sua vida.

Na minha também – confidenciei-lhe mentalmente.

Mais um motivo, além do dia de aniversário do meu blog (uma criança de 9 anos), a enternecer meu coração.

E, neste instante, tenho apenas um pensamento na alma: Como sou abençoada!

Feliz Dia de Reis!!!

 

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fadinha na lua

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Dorme em minha cama um homem sereno e profundo, silencioso e eterno.

 

De madrugada costuma levantar-se sem fazer um ruído sequer e escancara a janela de sua alma para que as estrelas o vejam e possam então conversar, divinos que são.

 

Uma noite dessas acordei com risinhos como se sussurros fossem e, quando ainda sonolenta quis saber o que acontecia, ele pediu-me para que adormecesse novamente, Estamos apenas recordando nossas travessuras infantis… 

 

Quando meus olhos já se fechavam, se entregando à viagem do sonho,  vi ao lado dele uma estrelinha azul sentada no beiral da janela a roubar-lhe um beijo.

Tomada pelo ciúmes quis  reagir mas então me lembrei de que ele apenas dorme em minha cama e que às vezes, com voz baixa e macia como convém aos anjos, canta para eu dormir.

 

 

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