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Posts Tagged ‘Universo’

Dúvida

Equador 1

 

 

 

O Equador é uma linha imaginária

desenhada com um compasso

passa por terras e oceanos

cruza seus meridianos

sempre convexos

.

E faz nexo

quando minha imaginação,

em uma só linha e reta,

torna-se a concepção

do Universo

 

E qual dor há nisso?

 

 

 

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.

Não suporta meu pranto, mas me faz chorar.

De alegria, de tristeza, de pura emoção.

 

Não me abandona, mas me deixa só.

No silêncio eterno de um segundo, na desesperança de um olhar, no gesto impossível.

 

Não se descuida do meu rumo, mas me esquece.

Na cama, na rua, no balanço cadenciado da rede, em um canto de sofá.

 

Não suporta sentir saudade, mas se ausenta.

E volta só na lua cheia, nas pétalas da flor que ainda não se abriu, na estrela distante.

 

Não me aprisiona, mas me assalta.

Nos sonhos, na imaginação, nos devaneios.

 

E, no entanto, eu o invado e ele permite.

Minuciosa e cuidadosamente, em todos os seus segredos, em cada ponto, em cada contorno, esconderijos.

E ele se abre, quieto e abnegado, se entrega e suspira entre meus dedos, meus olhos, meus murmúrios.

Pouco falo com ele porque é ele quem conta tudo para mim.

 

O que importa mesmo é que nos amamos.

Muito, sempre.

Quando, por alguma razão, eu o acaricio ternamente, e sempre o faço, sinto-o como um pedaço de mim, minha luz, minhas descobertas, minhas fantasias, meu eterno querer sonhar.

Meu ar.

 

 

Te homenageio hoje e sempre, a cada emoção meu querido amigo, que me faz crescer e tentar entender outros universos, outras buscas, outras origens.

À você, meu amigo inseparável que atende pelo nome de LIVRO, meu amor eterno.

 

 

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O Arquiteto

 

No tempo quando ainda era jovem, Deus começou a andar pela praia, rabiscando ora o chão, ora o ar, com um galho seco que encontrou.

Desenhou um caramujo na areia, um pássaro no céu, uma conchinha no mar, labaredas no sol.

 

Sua túnica batia em suas pernas como uma bandeira ao vento fazendo seu manto dançar o movimento do universo, acompanhando seus cabelos da cor do mel que se atiravam ao ar como pernas longas de bailarinas felizes.

 

Trazia em seu rosto sereno um sorriso sereno.

Ora assobiava, ora cantarolava.

 

Nesse dia seus olhos estavam limpidamente azuis; na verdade, brilhavam tanto quanto toda aquela paz.

Deus estava assim, perdidamente apaixonado, rindo de um nadinha, sorrindo para tudo!

 

No ponto mais bonito da paisagem, parou e sentou-se.

E fitou o mar, o ir e vir das águas caindo na areia, como se fosse uma renda sem fim a enfeitar a praia.

Ao mesmo tempo em que sentiu a leveza da espuma sussurrando, sentiu a profundeza e mistério do silêncio do alto do oceano e a força e altivez das ondas poderosas, arrasadoras, trazendo consigo tudo o que encontravam.

 

Estava diante do ciclo vital: o ir e vir, ir e vir, ir e vir …

 

Foi nesse exato momento que Deus sentiu-se mais alegre, imaginativo, capaz de sua melhor criação!

Rapidamente juntou um pouco de areia, como fazem os meninos quando vão  construir castelos e, simulou uma forma.

Seus olhos brilhavam, seus dedos trabalhavam ansiosamente porque sentia que o momento que se fazia era o supremo.

 

Levantou-se, distanciou-se um pouco e olhou.

Não gostou da forma que via.

Desmanchou-a.

Pensou por um momento.

  

Com a fisionomia contrita, porém feliz, sentia seu coração bater e bater palmas, quase a sair pela boca.

Juntou novamente um pouco de areia e assim a forma tinha melhor aspecto, mas precisava de água; havia necessidade de coesão para que a areia não se esparramasse.

Correu ao mar, pulando e correndo como criança e, com uma concha cor-de-rosa nas mãos, trouxe água para que a forma se mantivesse.

 

Havia propósito em realizar o melhor e assim seria!

 

O sol estava a pino.

O suor escorria em sua fronte, seus cabelos estavam molhados, sua túnica e pés também, seus olhos brilhavam, sua boca cantarolava, suas mãos agitadas trabalhando, afilando, modelando…

 

E nesse instante houve um lampejo em seus olhos, igual a um fecho de luz penetrando um diamante.

 

E todo o Universo se calou.

 

Deus fechou os olhos, ouviu sua voz interior e entendeu que acabara de criar o que vinha buscando já há algum tempo nas outras coisas que havia criado.

Respirou fundo, não conseguindo ficar por mais tempo com os olhos fechados; queria contemplar sua criação.

Quando os abriu surpreendeu-se, bateu palmas, deu cambalhotas na areia, pensou em chamar todos os outros seres para darem uma olhadela, mas não o fez.

Olhou com mais vagar, com cuidado, pois o queria o mais perfeito possível.

 

Olhou em volta e sentiu que a Natureza era sua cúmplice; sentiu que a forma era o que de mais belo havia criado até então.

 

E por assim sentir, resolveu acabar com a solidão.

Até então conversava com os pássaros, os animais, a terra, a água; brincava de correr com o fogo e o ar.

Mas não era o bastante.

Precisava ouvir palavras, pensamentos de um igual.

 

Deus então resolveu dar à forma o poder do livre pensar, seguido do poder do livre expressar.

 

Com carinho e cuidado, como se temesse acordar uma criança, insuflou em suas narinas o sopro da vida.

A forma pela primeira vez respirou e o sopro dentro de seu corpo circulou e tudo o que tocava ganhava vida, movimento, expressão.

 

Quando começou a despertar, Deus mais que correndo ajoelhou-se a seu lado, colocou a cabeça daquela forma, que agora era um ser, em seu colo, alisou-lhe os cabelos, o rosto e a fronte.

 

Quando abriu os olhos, a primeira visão daquele ser foi a de Deus debruçado sobre ele, sorrindo, transbordando de alegria.

 

A gaivota piou ao longe, a brisa embalou as ondas e o sol a tudo iluminou.

 

Deus tomou o rosto daquela criatura entre suas mãos, beijou suas faces e disse “Bom dia, meu amigo!”

Então o Homem sorriu.

 

Abraçados saíram a caminhar, Deus mostrando-lhe todas as coisas.

O Homem extasiado com a Natureza e Deus com sua criação.

 

                                           (primeira publicação, em 1975, no jornal da empresa em que trabalhei, na época intitulada O Dia da Criação)

 

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Desde o primeiro dia que se entendeu como um dos milhões de fragmentos do Universo, Azura começou a olhar mais para o céu que para a terra.

Passou a conhecer todas as fases da lua e todas as rotas do sol no decorrer das estações.

Sentia as mudanças na pele quando fechava os olhos… o movimento dos ventos, os aromas que eram trazidos, os ruídos quase que inaudíveis…

À noite fixava seus olhos nas constelações que via e o pensamento nas que não via, estudando-as com uma tenacidade que ela mesma não sabia explicar.

Depois de alguns outonos concluiu sua busca e só então escolheu uma delas para sua morada de origem; escolheu a menor estrela da constelação de Bezu.

Pelo simples prazer de poder olhar para ela e dizer Eu vim de lá!

 

Azura sentia-se feliz com pequenos sonhos, imagens, pensamentos noturnos como os voos luminosos e silenciosos dos anjos.

Não que se achasse também uma estrela, mas sentia-se diferente, visitante.

 

E por assim ser, Azura vivia quase que em conflito constante com seu ambiente; se não fosse seus sonhos, o elo se romperia, acordaria em outro espelho, sabia.

Refugiava-se então no estábulo, para buscar nas alturas sua pequena Bezu que brilhava magnífica, principalmente quando Azura a envolvia com seus olhos serenos, profundos, molhados.

 

Querendo entender um pouco mais de si mesma, um dia Azura resolveu visitar uma eremita que vivia no alto de uma montanha, a mais afastada da cidade.

E pediu a ela que fizesse seu mapa astral.

 

A velha senhora, em silêncio, traçou coordenadas, acrescentou datas e diagnosticou quase que de imediato, uma viagem para Azura.

Só não entendia a presença daquele tridente de Netuno no mapa, alí,  solto, sem sentido algum.

Pediu a Azura que voltasse no dia seguinte; assim poderia estudar com mais cautela e precisão o traçado astral daquela frágil criatura.

 

Azura, mesmo sem voltar com seu mapa nas mãos, sentiu-se subitamente mais leve, quase feliz, enquanto descia aquele caminho ora florido, ora pedregoso, lembrando-se de que, quando aprendeu a ouvir seu anjo guardião, aprendeu também a conversar com as pedras…

 

Naquela tarde Azura sentiu-se atraída para o estábulo sem entender bem a razão, visto que gostava de lá ficar mais à noite, junto ao silêncio.

Então escovou sua égua Prateada e a ela também deu de beber e comer, quando lá de cima, de súbito e do nada, despencou em sua direção aquele forcado imenso e pesado de pegar feno, como o tridente de Netuno.

 

Cravou-se em seu coração.

Seus olhos ainda puderam vislumbrar a noite que lá fora já acontecia.

Sua alma sorrindo, liberta, repetia baixinho Bezu pequena, és minha casa! Estou voltando… estou voltando…

 

No dia seguinte a velha senhora sabia que Azura não viria.

 

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