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Posts Tagged ‘velório inusitado’

 

Havia na cidade um homem muito rico mas muito estranho, meio homem, meio lobisomem, o que obrigava os pais de família trancarem suas filhas em casa depois das dez horas, horário este em que  Lobi (como era carinhosamente chamado) aproveitava-se da situação da maioria dos habitantes estarem entretidos diante da televisão, assistindo à novela.

Diga-se de passagem, também trancafiavam seus filhos, pois se assim não fosse, quando as meninas crescessem não teriam com quem se casar.

 

Pois foi que um dia o Lobi morreu.

E como era um personagem muito conhecido na cidade (até demais por algumas raparigas fugidias), sua mulher resolveu fazer um pomposo funeral, contratando músicos, encomendando flores, bebidas e comidinhas que agradassem a todo paladar.

Em um determinado horário, já noite, quando havia menos convivas no local, aconteceu, de repente, do Lobi dar uma tremenda espreguiçada com os braços ao léu e, mal se ajeitando no estreito caixão, virou-se para o lado direito, colocando as mãos debaixo do pequeno travesseiro que lhe sustentava a cabeça.

E dormiu.

Dormiu?

Vá lá, morreu novamente.

Novamente?

 

Foi um alarde geral!

A notícia correu de porta em porta e todos voltaram ao velório.

Houve até aqueles que, de tanta curiosidade, nem a roupa de dormir trocaram.

Foi necessária a formação de uma fila (que se perdia de vista) e até de cordão de isolamento, para que não se aproximassem tanto.

E Lobi lá, mortinho da silva!

 

A uma certa altura da madrugada, as pessoas (fora os familiares, parentes e os amigos mais chegados) desanimaram-se de tal forma que foram voltando para suas casas, decepcionadas por não terem visto qualquer coisa que fosse, mas que fosse inusitada.

Alguns até acharam que era mentira, que a notícia se espalhara apenas para que Lobi, da onde estivesse, visse aquela multidão e pensasse que era muito querido, à parte do que fizera em vida.

 

Logo que o sol surgiu, foi servido um vasto café da manhã para os presentes, por um bufett contratado na véspera, lá da capital.

As pessoas ali estavam sorvendo um cheiroso café, trocando impressões sobre a vida tão conturbada que fora a do Lobi, além do ocorrido na noite anterior.

Mas como ele continuasse sendo o prefeito da cidade (até que o enterrassem), os comentários eram feitos com uma certa reserva, ou seja, não falavam tudo o que pensavam.

 

Foi então que todos ouviram um sonoro e longo… pum, que mais parecia o lamento de um trompete triste e desafinado.

Espantados e incrédulos, os presentes entreolharam-se, imaginando quem fora capaz de tal flatulência.

Passados alguns suspensos segundos, todos dirigiram seus olhares para o caixão e disseram em uníssono, Foi o Lobi!!!

O médico logo se prontificou a esclarecer que Isso é normal acontecer, minha gente; o corpo, mesmo inerte, ainda apresenta algumas reações.

Ao que o vigário acrescentou, São os gases, meus filhos, que querem se libertar do corpo, tal como a alma!

Largaram de suas xícaras e brioches com geléias de pimenta, biscoitos com manteiguinha da fazenda, atropelando-se em correria, indo em direção ao Lobi.

Qual não foi a surpresa quando o viram de olhos abertos, com um meio sorriso sarcástico no canto esquerdo da boca e, com as mãos entrecruzadas, girando os polegares, um ao redor do outro;  ah! … outro detalhe, assoprava o veuzinho que lhe cobria o rosto, pois este irritava-o muito, muito mesmo.

 

Ninguém sabia o que fazer…

A primeira dama chegou perto, bem perto e disse baixinho, com a vóz entrecortada, Lobi… você está bem?… Está com fome?… quer uma xícara de café? foi passado agorinha! Lobi… fala alguma coisa, fala com a sua… vampirinha.

 

Foi a conta!

Todo aquele alvoroço começou novamente, além da cidade inteira passar a saber que, entre  quatro paredes, Lobi chamava a senhora sua esposa de… Vampirinha!

Precisaram reforçar a guarda municipal e os cordões de isolamento.

Eis que no exato momento em que o salão foi aberto à visitação pública, Lobi parou de assoprar o veuzinho, de rodopiar seus polegares e…fechou os olhos, voltando à fisionomia anterior.

Ficou ali quietinho, mortinho!

 

Desta vez, muitas pessoas não arredaram o pé de lá, ou melhor, o presidente da câmara dos vereadores organizou um revezamento (4 por 4) para, a qualquer momento, darem a assistência devida ao Lobi.

Vai que ele acordasse de vez e não encontrasse ninguém ali; na certa morreria de tristeza…

Mas as pessoas foram escolhidas a dedo para que, no término de seus devidos turnos, não saíssem pela cidade inventando “causos” por puro sensacionalismo.

Por conta desses acorda-dorme, dorme-acorda, a vampirinha (desculpem-me), a 1ª dama não queria marcar um horário, muito menos um dia para sepultar o marido.

 

Dias se passaram.

Os vereadores da cidade não podiam trabalhar, porque o velório acontecia justamente no recinto da câmara onde se reuniam para discutir os problemas e dificuldades da cidade.

De mais a mais, não podiam fazer eleição para novo prefeito por três grandes motivos: um já sabemos, o de que o morto ainda estava entre os vivos (e ele não cheira mal, não é? dizia um cego que por ali passava); outro, que o vice-prefeito escafedeu-se, com medo de receber junto com o cargo, a herança mental e moral do Lobi e, terceiro, o povo não dava a mínima para os comícios, propagandas e promessas e tudo o mais que se fazia necessário para ganhar seus votos.

Chegaram até a marcar uma data para a eleição, mas no dia ninguém compareceu, nem a mãe do candidato.

 

A escala de revezamento continuava e sortudo daquele que estivesse presente durante alguma manifestação do Lobi; teria histórias para contar para os filhos, netos e bisnetos, sim, porque com a morte do Lobi, as moças puderam passear, namorar, casar e ter filhos (algumas de forma meio rápida até).

 

E a vigília transcorreu por muito tempo, sem muitos contratempos.

Ora ouviam uma tosse; de outras, outro pum, agora com características de um saxofone ou de uma tuba; às vezes o veuzinho voando para cima e para baixo, uma vela que se apagava com um sopro (do Lobi, claro!)

E a conta da floricultura já estava enorme, mas seria paga com o orçamento da prefeitura.

E por falar em flor, às vezes uma florzinha saltava do caixão e quem estivesse de plantão, corria colocá-la de volta ao devido lugar, deparando-se algumas vezes com o Lobi de olhos abertos, Oi Lobi… você quer um cobertor nos pés?…quer que vire o travesseiro?…

 

E assim foi o velório do Lobi.

Ora acordado, ora dormindo.

Ora vivendo, ora morrendo.

Ad eternum.

 

 

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