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Posts Tagged ‘vigas’

Marcamos um encontro, apesar da nevasca.

Cheguei primeiro ao moinho.

O ambiente pareceu-me frio e abandonado.

A mó, inerte, tecida com teias de aranha, mais parecia uma mesa vazia.

Fiquei com vontade de girá-la, um pouco que fosse, só para ouvir o som da eternidade.

Fiquei tentada também em movê-la ao contrário; quem sabe, assim, eu me encontrasse com você, novamente no tempo em que sabíamos sorrir.

Subi ao palheiro e atirei-me naquela cama natural, querendo que ali você já estivesse, para sonharmos em voz alta algum momento de nossa infância.

Sozinha contemplei aquelas vigas de carvalho sustentando todo o moinho, vigas pelas quais o tempo apenas passa e que perdurarão quando muitas coisas já não mais existirem.

A idéia assustou-me, fazendo-me descer rápido do palheiro, para subir por uma escada lateral que eu não sabia aonde iria dar.

No último degrau vislumbrei um quarto em penumbra, quase vazio, mas com cortinas na janela e um breve perfume no ar.

Resolvi não adentrá-lo porque a sensação de deixar algo para ser desvendado mais tarde me agradava, sugerindo descobertas, talvez surpresas, quem sabe confirmações.

Retardei então o instante.

Deixei-o pairando no ar, como uma pena alvíssima que nunca atingiria o solo.

Somente quando se tornasse um momento real e  você estivesse presente e eu me sentisse segura por isso.

A lareira, agora inativa, ocupada por entulhos que outrora foram objetos úteis ou valiosos para alguém.

Faltava o calor da madeira a crepitar suas labaredas, até que se tornasse brasa coberta por cinzas, tal como um espelho meu.

O vento gélido e forte me abraçou e os flocos de neve, centenas, acarinharam meu rosto, meus cabelos, minhas mãos.

Alguns colaram-se em meu casaco de lã e em minhas botas pesadas, pegadas que testemunharam minha presença.

Enrolei-me melhor no xale verde que emoldurava uma possível e ainda esperança em meus olhos e tomei o rumo da estrada.

 

Até hoje continuo procurando o caminho.

O caminho que me leve à sua alma, para que eu possa parar um pouco, tomar fôlego e água, respirar o ar que me falta e me debruçar na centelha de luz do seu olhar.

E caso você não me queira mesmo, ave de voo tardio que sou mesmo em meio a temporais, poder continuar ou regressar.

Ao moinho.

À espera da primavera.

 

 

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