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Culpa da Nevasca

 

Peço permissão e desculpas por esta invasão.

Não, peço desculpas e depois permissão, nessa ordem.

 

Sei que durante a madrugada houve uma nevasca muito forte, deixando tudo absolutamente branco, como se nesse espaço nada houvera.

 

Pela manhã, nem a ponta do campanário da igreja podia ser vista.

A estrada que leva às montanhas, as montanhas; a grama verdinha digerida sempre pelos bois, os bois; as pequenas casas com seus telhados vermelhos, como os cabelos vermelhos de Sonia, com seu sorriso de seda a receber sua clientela de paladar apurado para queijos.

 

E o sol, o que aconteceu com o sol que dá vida à aldeia, que torna visível o mais invisível dos animais; o que foi feito dele, ou tornou-se dorminhoco como Seu Eulálio lá da sapataria, ou preguiçoso como Seu Tonico da banca de verduras?

 

Voltando às desculpas… aqui me rendo e peço perdão por invadir esta folha (é, esta mesma!) que julguei estar em branco, que apenas estava branca mas de neve, a neve que caiu pela madrugada adentro.

Perdão por estar escrevendo em cima da imagem bucólica dessa vila, que deve por certo existir em algum lugar deste mundo, além da minha mente, captada pela sensibilidade de algum artista e de seus moradores, uns amores!

 

Pedidas as desculpas, continuo pedindo, mas agora permissão, para dizer que, mesmo encoberta pela neve, esta vila é um pedacinho do paraíso!

 

Embora continue nevando torrencialmente, peço permissão, então, para mostrá-la ao fundo deste texto, destas palavras, mas somente para aqueles que podem vê-la.

 

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casal

 

 

A primeira vez que aqui cheguei, a venda funcionava sob o pulso de Seu Jacinto.

Dona Clotilde garantia o almoço de seu marido, Vem almoçar, moooor! e dos homens simples mas de braços fortes que por ali trabalhavam; Faço qualquer coisa, Dona, mas só trabalho honesto!

Da segunda vez, faltou o carinho e cuidados das mãos mágicas de Dona Clotilde.

Seu Jacinto e os moços simples, de braços fortes e bronzeados, almoçavam e jantavam e bebiam no boteco da esquina pintado de azul e amarelo; dizia o dono que para alegrar a vila.

Da terceira vez que me descambei para cá, Seu Jacinto já dormia com Dona Clotilde ao pé da mangueira cinquentenária aquele sono que ninguém mais pode acordar.

Naquele mesmo lugar onde se beijaram pela primeira vez, na noite de Santo Antonio, enquanto os outros, distraídos que estavam, pulavam a fogueira e nada viram.

Foi uma festa linda o funeral de Seu Jacinto, contaram-me os moços simples, de braços fortes, bronzeados e suarentos.

Foi do jeito que ele pediu quando se sentou em sua cadeira de balanço, no meio da noite e do quintal, onde tremeluzia apenas uma lamparina na soleira da porta.

Indo e vindo, indo e vindo, lentamente no balançar da cadeira e do tempo, olhou para o céu, tirou o chapéu, distraído fingiu que reparava nas unhas; depois olhou para aquela estrela que brilhava lá no fundo da paisagem e murmurou para seu coração, Já vou, mulher, já vou! Acaba de fazer a sopa de mandioquinha que eu já tô indo!

E aqueles moços simples, de braços fortes, bronzeados, suarentos e saudade no coração, disfarçadamente enxugaram uma lágrima.

Só Tonico chorou copiosamente, como se criança fosse.

E por causa desse pranto sem fim, continuei vindo para cá almoçar, conversar e beber no boteco da esquina com o Tonico e seus amigos, esses moços simples, de braços fortes, bronzeados, suarentos e de brilho intenso no olhar.

Só por isso.

 

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