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Posts Tagged ‘voo’

Segredo

casal 1

 

 

 

Guardo-te em mim

serenamente

com a certeza

de que faço de meu coração

teu abrigo permanente

 

Aqui podes tudo

ancorar, alçar vôos sem fim

ou ficar em repouso

mesmo quando morres um pouco

em momentos de escuridão

 

Quando a noite chega, cativo

essa criança que brincou o dia,

afagando teus cabelos, pele macia

beijo de boa noite

que pela madrugada se estenderá

 

Vais reconhecendo aos poucos meus recantos

que vibram com tua magia

fazes de meu corpo tua plenitude

tuas descobertas, meus anseios

 

Não preciso dizer teu nome

meu segredo

para quê?

se estás tão bem assim

guardado em mim

.

.

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Renovação

 

A noite passada

não é hoje

 

Sabes para onde estás indo

ou apenas voas

para fugir do desconhecido?

 

Considere os pássaros

eles sabem para onde estão indo

ou apenas voam sem rumo?

 

Sentes que não há nada a aprender

a procurar

não há mais nada a viver?

 

Voar tão alto, sem propósito

morrer congelado

onde já não há calor, nem luz

 

Não lute contra tuas asas

aceite teu dom

e faça dele tua mágica de ser

 

Entre um amanhecer e outro

há descobertas

que ainda te farão sair do chão

 

 

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 movimento

 

  

Voar em círculos

circunscritos

pousar no centro

  

Olhar de dentro

reconhecer

em tempo

  

Buscar no silêncio

o espelho das estrelas

centelhas

  

Olhar de fora

sem sobressaltos

o vulto oculto

  

A sombra

O gesto

O desafio

  

No quarto círculo

circunscrito

repousar

 

 

 

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Cena I

No mês passado revi um filme que, com o decorrer do tempo, muito me faz pensar. Sempre.

E por se tratar de um filme americano, surpreende-me pelo seu conteúdo, parecendo na verdade um daqueles filmes ingleses que muita gente não tem paciência de assistir.

Não que eu tenha alguma coisa contra filmes americanos; até que existem alguns bons mesmo.

 

São diálogos (às vezes monólogos) que parecem ter saído de minha boca, de minha alma, de meu estado de espírito que teima em aparentar-se sereno.

Em cada trecho do filme vem-me à mente o sentimento que teço por pessoas queridas, visíveis ou invisíveis; às vezes as duas.

 

O que deixo hoje aqui transcrito é para aquele que desde a minha adolescência deixei entrar por minha porta, tão especial já era, e que até hoje peço para que não saia, simplesmente porque o amo.

“Você me faz pensar na vida.

Você me faz lembrar o que perdemos.

Não é comum ver pessoas sorrindo, só quando sonham e é isso que você faz: pessoas sonharem com o que distante se encontra, levado pelas asas de um tempo que não voltará.

O momento, este sim voltará e se não estiveres presente, tornarei a perdê-lo na escuridão dos tempos.

E a consciência deste instante virá no exato momento em que for tarde demais.”

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Asas de Anjos

Saíra com seu caderno e lápis coloridos debaixo do braço, mas não conseguiu sequer fazer um traço naquela folha tão alva como as nuvens que passavam por sobre sua cabeça.

Tinha os olhos perdidos nas marcas daquele rosto triste, porém sereno, que se postara naquele banco do jardim em frente ao seu.

Tentava adivinhar-lhe as alegrias, as decepções e esperanças que resistiam ao tempo.

Como se pudesse olhar para duas coisas ao mesmo tempo, também deteve seus olhos nas mãos dele, a segurarem um livro.

Dedos longos, mãos de desenhista ou de pianista; por um instante olhou para as suas que também serviam de intermediárias para as cores de sua alma a traduzirem-se em traços e, no entanto, não eram bonitas e nem suaves como as dele.

Depois observou seu sobretudo de lã preta, o cachecol vermelho ao redor do pescoço, o óculos escuro embora nem sol fizesse, seus sapatos de couro preto bem cuidados, suas luvas mal colocadas dentro do bolso direito, com dedos que pareciam acenar para ela.

Seus cabelos de outono um pouco crescidos, um pouco desalinhados, anunciando o inverno.

E depois de um longo sussurro ou suspiro, não distinguiu ao certo, viu os braços dele se abaixarem e o livro cair lentamente no chão, ao mesmo tempo em que dormitava com um sorriso quase que infantil nos lábios. O que será que lia?

Ela ficou ali a fitá-lo e teve vontade de pegar o livro do chão, entregando-o.

Mas ficou imóvel, olhando a dança das páginas que se agitavam ora para um lado, ora para outro, acompanhando o compasso daquele vento repentino.

E sorriu ternamente porque acabara de entender que os poetas e escritores são anjos em eterno vôo.

Sim, em eterno vôo.

Colocam nas páginas do livro seus sonhos, sentimentos, angústias, esperanças.

Se assim não o fizessem, não haveria livros com páginas a voar como asas de anjos em eterno movimento, como aquelas que agora via.

Anjos que, com asas de papel e palavras, também fazem voar através do tempo e da magia aqueles que as tentam desvendar…

Em eterno movimento.

Lentamente, uma por uma, em uma leitura serena ou difícil, onde o virar de páginas ocorre em espaçamentos, entre uma reflexão e uma convicção, entre uma dúvida e uma satisfação.

Ou veloz, como acontecia agora, diante de seus olhos, com aquele vento arrebatador a quase arrancá-las.

Anjos em eterno vôo, em eterno movimento.

Desafiando o imaginário.

Quando descerrou os olhos, o homem à sua frente acabara de despertar (será que sonhara também com anjos?).

Recolhia o livro do chão, limpando-o cuidadosamente e aconchegando-o ao peito à medida que se levantava, como se o livro sentisse frio e solidão e precisasse ser aquecido com o calor de seu corpo, perto de seu coração.

Foi com esse pensamento que ela resolveu ir-se embora também.

À entrada de sua casa limpou seus pés no capacho, como a não permitir que as coisas inúteis e mundanas que havia visto naquela tarde invadissem seu templo.

Deixou que entrasse consigo apenas a imagem daquele homem que zelara tanto pelos anjos em pleno vôo e que habitavam seu livro.

Talvez sem saber que os possuía.

 

 

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Deita menino, tua cabeça no meu ombro.

 

Se quiseres continuar tocando tua flauta, ouvirei todas as notas e verei todos os risos que dela se elevam aos céus.

 

Se quiseres chorar, não farei barulho algum para que possas ouvir o bater forte e compassado de meu coração, dizendo que nas lágrimas mais sentidas estão escondidos os oceanos de esperança.

 

Dorme menino, deixa que o vento suave brinque com teus cabelos macios, te beije os olhos e os sonhos; enquanto ressonas, recordarei teus murmúrios, teus pedidos às estrelas quando, numa poça d’água, achavas que as tinhas a escorrer entre os dedos.

 

Quando acordares será outro tempo e, abrindo teus olhos e tua mente, terás tempo suficiente para sentires o sol raiando na tua vontade louca de viver!

 

Por enquanto, adormece menino; prometo segurar teu balão colorido para que não saia a voar sem destino e também não deixarei que as formigas façam festa com teu algodão doce porque, bem sei, o clima não é de festa…

 

Quero apenas que descanse teu cansaço, tua dor, tua aflição; quem sabe sonhes com uma pipa linda a riscar o espaço, quem sabe sonhes com uma rosa ou com uma nova canção.

 

Permite apenas que eu sorria, na tentativa de que teu sono seja em paz.

 

 

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Gosto de ser assim
paciente, calma
trocando um pé depois do outro
embora minha tranquilidade
às vezes
seja tão aparente quanto a do espelho
onde costumo encontrar-me sempre
pelas manhãs

 

 
Gosto de ser assim
atenta, delicada
gestos suaves
porque pretendo,
até que eu me vá,
estar sempre fazendo um carinho
nas coisas, nas pessoas,
na vida

 

 
Gosto de ser assim
silenciosa
em meio a um turbilhão
discreta, ponderada
para que as pontes
às vezes tão precárias
aos meus pés não se rompam
atirando-me nas correntezas frias
das águas de pedras cortantes

 

 
Gosto de ser assim
de olhar nos olhos
pressentindo um riso doce
ou um gesto
desenhando pequenas alegrias
no ar

 

 
Gosto de ser assim
buscar o improvável
a mola que me move
infinita

 

 
Gosto de ser assim
suave e colorida
quando voo
ao encontro do meu lar interior
quando comungo com as forças
do Universo
sentindo em meu rosto
o suave roçar da eternidade

 

 
Gosto de ser assim
com todos os medos catalogados
(como diz  Adélia Prado)
e com todos os sonhos organizados
para serem sonhados
outra e mais outras vezes

 

 
Gosto de ser assim
quando choro
quietinha de emoção
quando as palavras são mais
que palavras
sentimentos
que me tocam profundamente

 

 
Gosto de ser assim
mesmo quando morro pouco  a pouco
de saudade de ter vivido
o que não houvera…

 

 
Gosto de ser assim
embora aconchegante
e tranquila e sozinha
em minha cama,
sentí-lo por perto
tão perto
a mim abraçado
como uma possibilidade
e dormir serena
sentindo-o a me acarinhar

 

 
Gosto de mim assim
com pés no chão
coração a voar pelos campos
mares
lugares que me fazem ser assim

 

 
Gosto de mim

 

 

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